sábado, 7 de outubro de 2017 09:54

Lá vem bala!

O lado bom da crise é que ela permite falar de todo tipo de assun to. Alguns, mesmo esquecidos, voltam a aflorar. Um deles é a questão do desarmamento.

Esta semana um doidão norte-americano matou 59 pessoas e feriu mais de quinhentas, sem motivo aparente. O mundo ficou chocado. Pois descobri, na imprensa, que isto é comum por lá. Neste ano de 2017, nos primeiros 275 dias, os EUA registraram 273 tiroteios em massa. É isso mesmo, meu caro leitor. De 1º de janeiro a 2 de outubro, 273 atiradores deixaram um rastro de morte e sofrimento em todo o território norte-americano.

Neste ano, 11.685 pessoas morreram por disparos de armas de fogo nos Estados Unidos. Isso dá 42 mortes por dia!

Os dados são da “Gun Violence Archive”, uma entidade dedicada a registrar esse tipo de informação. Estima-se que cerca de 60 milhões de pessoas possuem arma de fogo. Recentemente o presidente Trump cancelou uma lei que impedia a venda de armas a pessoas com deficiência mental. A indústria de armas foi uma das financiadoras da campanha presidencial de Trump, é claro. Daí que qualquer pessoa, literalmente, pode ter uma arma.

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E o Brasil, como fica? Por aqui o número de mortes é maior. A diferença é que é muito raro o comportamento maníaco que gera mortes em massa. O grosso das mortes acontece em confrontos de gangues com policiais.

É grande, eu sei, o número de pessoas que defendem o direito de portar arma. Alguns sonham com um mundo onde todos andem armados. Existe um sentimento de virilidade atrás da ideia de andar armado. Argumentam que, assim, os bandidos morreriam de medo e não cometeriam crimes.

Dizem: “Ah, assim eu posso me defender!” Teoricamente, sim. Na prática, não.

Os especialistas garantem: a probabilidade de um cidadão ter condição de se defender com uma arma de fogo, num caso de violência, é mínima. O mais provável é que a arma do “cidadão de bem” vá mesmo parar nas mãos dos bandidos, e que o cidadão termine crivado de balas.

O fato é que, hoje, em razão da lei, o uso é bem restrito. Quem porta arma sem autorização legal, portanto, está cometendo um crime. Por isso o chamamos de “bandido”. Por isso, também, é fácil identificá-los, entende?

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Mudando de assunto. Em algum momento recente eu disse aqui que o Brasil estava avançando rapidamente em direção ao passado.

Alguns não entenderam. Ou, talvez, eu não soube explicar. Mas a notícia desta semana (que ocupou um espaço insignificante na imprensa) pode nos ajudar a entender. Uma carta chegou ao gabinete da Presidência da República, em Brasília, na última sexta-feira. Não era uma carta simples. Ela estava assinada por não menos de 23 ganhadores do Prêmio Nobel.

O que querem estas figuras ilustres, chefiadas pelo físico francês Claude Cohen-Tarnnoudji? Querem que as verbas de ciência e tecnologia não sejam reduzidas pelo Governo, o que, aliás, já vem acontecendo. O cenário é o pior possível. O governo cortou 44% do orçamento dos ministérios ligados à ciência, tecnologia, inovações e comunicações. E quer cortar mais 15,5% no próximo ano.

Não é preciso muita imaginação, nem muita conversa fiada, para entender o que está acontecendo. As áreas de pesquisa no Brasil estão paralisadas. Muitos cérebros brasileiros (alguns mundialmente conhecidos) já estão deixando o país em busca de locais onde possam continuar suas pesquisas e contribuir para a ciência.

Também não precisamos de imaginação para concluir que, com isso, estamos “comprometendo seriamente o futuro do País”, como disse a carta. Concordo com eles. O atraso nos espera.

 

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