MP investiga partilha de salário na Câmara de Vereadores

Foi gravada conversa entre assessora e ex-assessor de vereadores no momento em que ocorreu a entrega do dinheiro.

MP investiga partilha de salário na Câmara de Vereadores

O Jornal Noroeste entregou na manhã do último dia 16 de fevereiro uma denúncia ao Ministério Público Estadual. O material, em forma de vídeo e áudio, gravado, foi trazido até nossa reportagem por uma fonte que apontava um suposto repasse de salários, de forma irregular, entre uma assessora parlamentar e um ex-assessor. A denúncia é embasada em um áudio gravado em julho de 2017 e dois vídeos. A gravação teria ocorrido na Rua Santo Ângelo, próximo à Câmara de Vereadores de Santa Rosa. Com 10 minutos e 47 segundos de duração, o material registra o momento em que a assessora Catieli Iorrana Marques Rolim, do gabinete do então vereador Marino Martins (PP), realizava o repasse de R$ 1 mil para Airton Rafael Raccolto, ex-assessor de Marino.

No áudio, Airton Rafael, o beneficiado no esquema, recebe o valor e conta como tudo foi negociado. Ele seria assessor de Rodrigo Bürkle (PP), vereador que optou assumir a Secretaria de Infraestrutura Urbana. Durante 22 dias ele assessorou Marino. A contrapartida viria para compensá-lo de um cargo que o prefeito Alcides Vicini prometera, mas não cumprira, na Prefeitura. Ele receberia os R$ 1 mil até assumir um cargo de CC. Segundo Catiele, esta divisão teria ocorrido de março a julho de 2017.

Nossa reportagem, através de um pedido formalizado diretamente ao promotor Janor Duarte, teve acesso à ‘degravação’ feita pelo Ministério Público. No áudio, Rafael conta que participou da reunião que definiu a partilha. Na ocasião, ele cita, que também estavam presentes Rodrigo Bürkle, Marino Martins e o prefeito Alcides Vicini.

Parte da conversa gravada apresenta o seguinte diálogo:

- Catieli: “O prefeito também foi lá na Câmara, né?”

- Rafael: “Sim, foi, nesse dia.”

- Catieli: “Tu ‘tava’ junto?”.

- Rafael: “Claro, eu ‘tava’ lá! Daí o prefeito disse, daí tu não vai ficar sem receber. E daí o prefeito disse: tu ia colocar outro no teu lugar? Falou pra mim. Eu disse, eu ia... mas aí o Marino disse que tem uma assessora. Eu acho injusto também se ela já trabalhou para ele, então vamos deixar ela fazer.”

Na sequência Rafael cita a negociação do cargo com Rodrigo Bürkle e o prefeito:

- Rafael: “Na palavra do prefeito e do Rodrigo era pra eu ter colocado outro. ‘Eles disse:’ não, coloca outro e tu racha”.

Rafael ainda cita que tem informações que a chamada ‘partilha’ ocorre com, no mínimo, mais cinco assessores da Câmara, mas não citou nomes. Ainda, no áudio, Airton Rafael afirma que teriam prometido um cargo na Prefeitura, e que inclusive chegou a entregar a documentação necessária para assumir uma diretoria, o que não chegou a acontecer.

A assessora afirma que sobrava do salário dela apenas R$ 1,2 mil por mês devido à partilha. Nossa reportagem procurou-a, mas ela não quis se manifestar.

Catieli foi ouvida no MP pelo promotor Janor Duarte, no dia 20 de março, quando relatou todo o fato, confirmando o repasse. A novidade é que ela afirmou que no final de julho de 2017, Ademar da Veiga Martins, popularmente conhecido como Dema, e Carlos Marino Martins solicitaram que a mesma gravasse a conversa. Nos autos do processo consta: “a intenção seria chantagear o vereador Rodrigo Bürkle. A declarante não quis participar disso. Então, Ademar da Veiga Martins disse que no próximo encontro ela apenas faria as perguntas e que a ordem era do vereador Douglas Calixto. Dias depois, a atual assessora de Douglas procurou Catieli e entregou um cheque de R$ 300,00 para ser repassado a um investigador de nome Márcio”.

Já no ano passado, Marino foi condenado em ação movida pelo Ministério Público e saiu da Câmara. Sua vaga foi assumida por Fernando Classmann. Catieli foi exonerada no mês passado por Classmann.

O Ministério Público abriu processo investigatório para apurar o caso.

 

 

O que dizem os citados:

Catieli Iorrana Marques Rolim: nossa reportagem não conseguiu contato com a citada.

Douglas Calixto, vereador do PP: não quis se manifestar, apenas disse que aguardará ser chamado pelo Ministério Público para dar explicações sobre a citação de seu nome.

Rodrigo Bürkle: “eu fiquei na câmara apenas um dia. Não participei de nenhuma reunião para negociar partilha. Não autorizei ninguém a fazer isso em meu nome. Conheço o Rafael, mas não prometi cargo nenhum para ele. Nunca teve impasse nenhum sobre o caso, e pelo que sei, de informação, ele foi exonerado da Câmara de Vereadores.”

Carlos Marino Martins: nossa reportagem não conseguiu contato.

Prefeito Alcides Vicini: “considero um absurdo a alusão de que eu teria articulado isso. Em outubro, quando passei a montar minha equipe, convidei o Rodrigo Bürkle para o secretariado, e ele não fez nenhuma imposição nessa direção. Desconheço o teor da pretensa conversa dos dois ex-assessores. Parece armação de pessoas envolvendo terceiros na tentativa de se beneficiar desse enredo fantasioso.”