*Clairto Martin
Quando não somos medíocres em nossa forma de olhar o mundo, todas as fases de nossa vida são brilhantes. Há em nós uma vontade louca de crescer e de fazer 18 anos. Depois um temor em saber como seremos aos 30, e nesta idade, um receio quanto aos 50. É natural. Idealizamos a infância porque “éramos” mais felizes. O presente é sempre um agoniante corre-corre para que o futuro nos reserve um mar de rosas, e isso justifica o ritmo de matar leões a cada dia.
O futuro nunca deixa de figurar entre nossas preocupações: como seremos, quantos cabelos restarão, e a saúde, os filhos, aquela casa na praia... hahã. Filhos criados, casa e carro bom, uma poupança para as viagens e o salário garantido pela aposentadoria. AI! É aí que dói. E não é dor na coluna, no nervo ciático, nas juntas. Dói quando aparece em cena um Fernando Henrique, e depois um Lula, para provar que a vida, esse presente sublime de Deus, pode ser bem dolorida na fase que tinha tudo para ser perfeita.
Entra ano e sai anos e continua, o Governo, a roubar dos aposentados: rouba a paz, a tranquilidade, o conforto, até a esperança. Há anos ouvimos essa lenga-lenga de que reajustar equiparadamente os aposentados e os trabalhadores da ativa é apostar na falência do INSS. Pois que se decrete a falência e o Governo que banque remanejando recursos de outras áreas, ora. (Aqui cabe um elogio a quem tem coragem, como o senador Paulo Paim, de gritar contra a injustiça, contra o ataque à dignidade do ser humano).
Há dinheiro nesse Brasil para milhões em emendas parlamentares, para que os deputados coloquem em seus currais eleitorais; há milhões para assistencialismo no vale isso, bolsa aquilo e muitas vezes com uma fiscalização pífia. Há bilhões para custear um Senado inoperante e um parlamento onde sobram denúncias de corrupção, desvios e conchavos. Há para obras e mais obras que têm peso de campanha eleitoral. Ou para pagar algumas aposentadorias bem gordas, aí tem.
Para o aposentado não há.
Este que se dane. É como colocar a culpa nos aposentados, pois se a Previdência quebrar é porque trabalharam pouco. Labutar anos para aposentar-se e ser tratado como cão sarnento, levando a culpa, deve ser dolorido. Ainda não cheguei lá, mas gera certa angústia saber que talvez passe horas em uma fila de posto de saúde ou vendo ano a ano o salário diminuir enquanto as contas sobem. É ridículo perceber que todos terão direito a 10% (12%, 15%) de reajuste e os “vagabundos” (como sugeriu um certo presidente da República) receberão 5%. Aposentar-se ganhando cinco salários e poucos anos depois estar recebendo três ou menos é uma realidade injusta, inexplicável, traiçoeira e covarde.
No tempo em que deveriam gozar o melhor da vida, o presente é a desvalorização, diminuição dos ganhos ou então, manter-se na ativa para ter o acúmulo dos dois: aposentadoria e trabalho. Isso beira à escravidão, que só é compreensível e admissível em um país atrasado e subdesenvolvido, que não preza pela dignidade do homem. Se esses sujeitos emproados que ditam as leis fossem sujeitos às mesmas leis, certamente o quadro mudaria de figura. E, você, que é aposentado ou pensa em chegar lá um dia, não esqueça de dizer isso com todas as letras através do voto nas próximas eleições.