*Éverton Maciel
Santa Rosa esteve no cenário nacional mais uma vez, com a participação de Cello Machado no quadro “Garagem do Faustão”. O programa foi levado ao ar no último final de semana em um dos programas dominicais de maior audiência em todo o Brasil. Além de conseguir uma classificação destacada, como mostra a reportagem da primeira página do Jornal Noroeste, Machado se mostra entusiasmado com a conquista, por motivos especiais: é um afrodescendente, nascido em uma zona bastante pobre do Rio de Janeiro e que buscou Santa Rosa para montar sua família e conseguir novas oportunidades de trabalho. Até agora, o resultado desse empreendimento de vida havia sido de muita frustração. Cello sentiu na carne o preconceito proveniente das culturas de origem europeias para com os homens e mulheres de miscigenados ou descendentes de africanos.
Mesmo que o “Domingão do Faustão” possa ser um programa de qualidade polêmica e não seja referência unânime, faltou sensibilidade, na nossa região, para que pudéssemos reconhecer em Cello seu valor artístico. Quase metade das pessoas que votaram nele para a final do concurso viram o que não vimos. A autenticidade social da música composta por ele foi destacada, junto com o comprometimento educacional e a mensagem didática e antipreconceituosa transmitida pela sua música.
Se temos no Brasil uma das nações mais multiculturais do mundo, é também aqui onde a diferença, aplicada especialmente às minorias étnicas, se mostrou mais presente ao longo da história. Diante desse cenário, é visível que nossa região ganha destaque negativo quando o assunto é a aceitação de outras etnias, culturas e formas de pensamento.
Esse provincianismo local é motivado por várias fontes. Entre elas está, principalmente, a escancarada visão imediatista que potencializa em valores como o do trabalho a capacidade de socialização. Isso não pode ser pensado dentro desse contexto. A sonegação de nossa identidade brasileira, em troca de algo que nossos antepassados europeus foram é um dos maiores crimes que podem ser cometidos por uma sociedade.
Precisamos abandonar essas ideias vulgares e ultrapassadas.
Movimentar nossas forças para que possamos crescer e nos desenvolver somente do ponto de vista econômico, é algo inimaginável. Sem levar em conta conceitos mais amplos e essencialmente culturais, não podemos nos tornar uma sociedade que mereça o título de “desenvolvida”.