Planejamento estratégico

Se você algum dia estudou administração e gestão, sabe o quanto é importante o planejamento estratégico. Aliás, não só na empresa. O planejamento sempre evita surpresas. Nesses dias gelados, só para citar um exemplo, o planejamento é fundamental. Chega aquela hora do banho, sabe? A temperatura de arrepiar. A TV mostrando imagens de geadas e neve. Você sabe que terá de enfrentar o desafio do banho e pensa: “Malditos índios que inventaram o banho diário!”.

Pular o banho, portanto, não está nos seus planos. A esposa faria um escândalo. Então, é hora de planejar para que tudo ocorra sem percalços. É aí que as noções de planejamento e estratégia entram em cena. Siga em frente, sem medo. Primeiramente, trace uma meta. Um banho de cinco minutos. Mais do que isso é gasto excessivo de energia. Tempo menor
pode deixar algumas partes com cheiro desagradável, especialmente aquela parte que encolhe no frio (você sabe do que estou falando). Cinco minutos está bom.

Faça uma análise prévia das condições (fatores externos). Tudo está funcionando? O banheiro está pronto? A toalha está lá? Nessa hora, um aquecedor cai bem. O chuveiro deve estar em condições, pois se ele queimar quando você estiver com o shampoo no cabelo, tudo se complica. Nesta etapa do planejamento é preciso coragem. Avance, pois, para a próxima etapa.

Elabore um plano de ação. Tomar uma ducha. Passar generosamente o sabonete (também nas partes mais escondidas). Outra ducha para escorrer. Desligar o chuveiro. Lançar mão da toalha rapidamente. É um plano bom, acredite. Escolha as prioridades. Vestir-se dentro do banheiro ou lá no quarto? O pijama já está à espera? E a pantufa? Imagine você
terminar o banho e sair pela casa — peladão! — procurando as roupas! É um sofrimento evitável. Por isso, preveja as condições para a saída do chuveiro.

Ao final, monitore os resultados. Sofreu muito? Todos os equipamentos (roupas) estavam à disposição? O tempo de execução do plano foi cumprido? A esposa aprovou o maridão cheiroso? Se as respostas forem positivas, acredite, você está ficando bom em planejamento estratégico...
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Num inverno, anos atrás, o time do Corinthians viajava a Porto Alegre para enfrentar o Grêmio pelo campeonato brasileiro. Um dia muito frio. Os paulistas temiam a temperatura baixa em Porto Alegre. Quando o avião se aproximou do aeroporto Salgado Filho, o comandante da aeronave comunicou aos passageiros:

— Senhoras e senhores, estamos chegando a Porto Alegre. Neste momento, na capital gaúcha, zero grau!

O folclórico presidente corintiano, Vicente Mateus, virou-se para os jogadores com ar de comemoração e disse:

— Pessoal, notícia boa para nós. Zero grau. Nem frio, nem calor...
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Inverno traz coisas boas e coisas desagradáveis. Adoça as laranjas, matura o vinho e mata os mosquitos. Por outro lado, o frio intenso causa dor física, reduz o convívio social e pode até matar. Mas, esteja certo, por mais rigoroso, por mais severo que seja o inverno, depois dele sempre virá a primavera. Puxa, acho que acabei de fazer uma frase bem bacana...

A múmia de Cerro Largo

Minha avó, pelo lado paterno, viveu em Cerro Largo. Por esse motivo mantenho alguma relação com aquela cidade. Tenho parentes por lá. Pois recentemente — como você também deve ter sabido —, uma notícia que parece roteiro de filme de suspense chamou a atenção pois envolve a cidade e um de seus moradores.

Um egípcio, amigo de um advogado de Cerro Largo que vivia no Rio de Janeiro, presenteou-o com a cabeça de uma múmia. Múmia mesmo, perfeitamente conservada! O advogado carregou o objeto por diversas cidades onde morou. Mais tarde, decidiu doar para um morador de Cerro Largo, que após algum tempo a colocou num museu da cidade. O egípcio e o advogado já morreram. A múmia tinha morrido antes, claro. Guido Henz, o morador dono da cabeça, continua em Cerro Largo, contribuindo para a cultura local. Análises químicas feitas pela PUC-RS e um laboratório dos Estados Unidos confirmaram que a cabeça pertenceu a mulher que viveu cerca de 700 anos antes de Cristo. Tinha entre 42 e 43 anos e, segundo o egípcio aquele, era uma rainha. Para os estudiosos, um material muito valioso. Afinal, não é toda hora que uma cabeça fica viajando pelo Brasil assim, sem mais nem menos...

Não é uma história muito louca? Fiquei pensando sobre a egípcia que, para os padrões atuais, ainda era uma mulher jovem ao morrer. Teria sido mesmo uma rainha? Pediu para ser mumificada esperando uma ressurreição? Teria sonhado em conhecer Cerro Largo?
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Não seria bacana ter uma múmia na família, como os egípcios? Você mostra a múmia do seu tatara-tatara-tataravô para um amigo e comenta:
— Você não acha que ele está bem conservadinho?
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Dizem as más línguas que o cara que guardava a múmia decidiu colocá-la no museu porque estava cansado de explicar à esposa que aquilo não tinha nada a ver com sua antiga namorada.
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Um amigo cerro-larguense, desconfiado como viúva rica, me disse que mexer com múmias egípcias dá azar e atrai maldições. E, para reforçar, lembrou das maldições que teriam atacado os egiptólogos que descobriam a tumba de Tutancámon, um faraó egípcio.
— Os caras que acharam o Tutancámon já estão todos mortos — disse.
— Mas claro, isso foi em 1922... — comentei.
— É o que eu estou te dizendo.
Fiquei sem argumento. Perguntei-lhe, então, quais maldições uma múmia poderia lançar sobre a população de Cerro Largo. Ele parou para pensar e respondeu:
— Sei lá... uma praga da gafanhotos, uma chuva de agrotóxicos, ou, o que é pior, uma invasão de música sertaneja...
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Neste momento a cabeça da múmia está em exposição em Porto Alegre. Após, retornará a Cerro Largo. Certamente se transformará na maior atração turística da cidade depois do alambique do Schroeder. Dia desses vou até lá para conhecer. Em tempo, esclareço: a minha avó e a múmia não se conheceram.

Orçamentos

Se você não sabe a diferença entre o orçamento público e o orçamento familiar, seria importante refletir a respeito. Digo isso porque há confusão a respeito. Temos visto, com frequência, algumas autoridades dizendo que o governo deve cuidar de suas contas como um pai de família cuida das contas do lar. Sob o ponto de vista do zelo que devemos ter com o assunto, até podemos concordar. Mas sob a forma como são constituídos esses orçamentos, a coisa fica bem diferente.

Se está sobrando mês no fim do seu salário, se a grana já não cobre as despesas da casa, é preciso tomar providências. Se um pai de família descobre que está entrando numa espiral de endividamento, não pode ficar sem fazer nada. Pelo menos, é este o cuidado e o zelo que se espera dele. Assim, para que seu salário volte a cobrir as despesas da casa, é preciso cortar os supérfluos. Coisas como aquela viagem à praia, a TV por assinatura, o último modelo de celular, o novo guarda-roupas e outras despesas não urgentes podem ser deixadas de lado. É a forma mais razoável de colocar as contas em dia e recuperar o equilíbrio (para o pai de família dormir em paz outra vez). 

Sair do endividamento é doloroso. Já passei por isso. Mas é possível e requer um certo planejamento e alguma determinação. É assim que a coisa se resolve. Um pai de família não pode, por exemplo, fazer seu salário subir de uma hora pra outra. Aí está a diferença.
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O orçamento do governo, porém, é uma coisa muito diferente. Mas também exige zelo e cuidado, evidentemente. O governo tem despesas e receitas. Pode até reduzir as despesas do seu orçamento, mas este é o caminho menos inteligente e também o mais difícil. Mas se a receita já não cobre o orçado, surge uma situação que todo governo enfrenta.

Ao contrário de você (de nós todos que recebemos salários) o governo pode alterar suas receitas ao mesmo tempo em que controla as despesas. Vamos entender de forma simples. Se a economia está paralisada, e em algumas áreas se encolhendo, fica claro que as receitas do governo também estão sendo reduzidas. Sendo o governo o principal “motor” da economia, se este “motor” estiver em marcha lenta, quase parando, é evidente que as receitas vão ladeira abaixo. Do lado das despesas, cortar gastos não é fácil. Às vezes, quase impossível. Fazer cortes em educação, saúde e segurança (só para citar três exemplos) é extremamente difícil e pode ser até algo perverso para a população.

Assim, como o mais ingênuo estudante de economia sabe, fazer a economia girar é a fórmula indispensável, pois só ela pode manter, ou ampliar, as receitas do governo. É por isso que o Estado (ou governo, se você preferir) é o “motor” da economia.
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Ao contrário de um pai de família (que só pode fazer o ajuste no lado da despesa), o governo pode, e deve, agir especialmente no lado da receita. E a receita, quando falando de orçamento de um país, está diretamente relacionada com a dinâmica da economia. Se ela estiver parada, é pura perda de tempo um ministro da economia ficar chorando em frente
às câmeras de TV tentando encontrar culpados. É claro que gastos supérfluos e supersalários devem ser cortados. É o mínimo que se espera. Mas isto não salva um governo. O que salva é uma economia dinâmica, que não temos neste momento. Pelo visto, para que alguma venha a acontecer, o ministro da economia primeiramente precisa aprender a distinguir
entre o orçamento familiar e o orçamento governamental.