Orçamentos

Se você não sabe a diferença entre o orçamento público e o orçamento familiar, seria importante refletir a respeito. Digo isso porque há confusão a respeito. Temos visto, com frequência, algumas autoridades dizendo que o governo deve cuidar de suas contas como um pai de família cuida das contas do lar. Sob o ponto de vista do zelo que devemos ter com o assunto, até podemos concordar. Mas sob a forma como são constituídos esses orçamentos, a coisa fica bem diferente.

Se está sobrando mês no fim do seu salário, se a grana já não cobre as despesas da casa, é preciso tomar providências. Se um pai de família descobre que está entrando numa espiral de endividamento, não pode ficar sem fazer nada. Pelo menos, é este o cuidado e o zelo que se espera dele. Assim, para que seu salário volte a cobrir as despesas da casa, é preciso cortar os supérfluos. Coisas como aquela viagem à praia, a TV por assinatura, o último modelo de celular, o novo guarda-roupas e outras despesas não urgentes podem ser deixadas de lado. É a forma mais razoável de colocar as contas em dia e recuperar o equilíbrio (para o pai de família dormir em paz outra vez). 

Sair do endividamento é doloroso. Já passei por isso. Mas é possível e requer um certo planejamento e alguma determinação. É assim que a coisa se resolve. Um pai de família não pode, por exemplo, fazer seu salário subir de uma hora pra outra. Aí está a diferença.
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O orçamento do governo, porém, é uma coisa muito diferente. Mas também exige zelo e cuidado, evidentemente. O governo tem despesas e receitas. Pode até reduzir as despesas do seu orçamento, mas este é o caminho menos inteligente e também o mais difícil. Mas se a receita já não cobre o orçado, surge uma situação que todo governo enfrenta.

Ao contrário de você (de nós todos que recebemos salários) o governo pode alterar suas receitas ao mesmo tempo em que controla as despesas. Vamos entender de forma simples. Se a economia está paralisada, e em algumas áreas se encolhendo, fica claro que as receitas do governo também estão sendo reduzidas. Sendo o governo o principal “motor” da economia, se este “motor” estiver em marcha lenta, quase parando, é evidente que as receitas vão ladeira abaixo. Do lado das despesas, cortar gastos não é fácil. Às vezes, quase impossível. Fazer cortes em educação, saúde e segurança (só para citar três exemplos) é extremamente difícil e pode ser até algo perverso para a população.

Assim, como o mais ingênuo estudante de economia sabe, fazer a economia girar é a fórmula indispensável, pois só ela pode manter, ou ampliar, as receitas do governo. É por isso que o Estado (ou governo, se você preferir) é o “motor” da economia.
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Ao contrário de um pai de família (que só pode fazer o ajuste no lado da despesa), o governo pode, e deve, agir especialmente no lado da receita. E a receita, quando falando de orçamento de um país, está diretamente relacionada com a dinâmica da economia. Se ela estiver parada, é pura perda de tempo um ministro da economia ficar chorando em frente
às câmeras de TV tentando encontrar culpados. É claro que gastos supérfluos e supersalários devem ser cortados. É o mínimo que se espera. Mas isto não salva um governo. O que salva é uma economia dinâmica, que não temos neste momento. Pelo visto, para que alguma venha a acontecer, o ministro da economia primeiramente precisa aprender a distinguir
entre o orçamento familiar e o orçamento governamental.

O tal complexo

A cada crise política no Brasil parece que o nosso complexo de vira-latas ressurge com força total. Trata-se daquele sentimento pelo qual o brasileiro ataca a si mesmo, oculta suas próprias virtudes e enaltece os cidadãos de outros lugares do mundo. São aqueles comentários tipo “Ah, se fosse na Dinamarca, a coisa não ficava assim...”.

Há várias teorias a respeito. Uma é que o nosso racismo dissimulado impede que a gente tenha orgulho de ser brasileiro. Afinal, para muitos, “brasileiro” é uma palavra usada para acusar alguém de folgado ou vagabundo. Puro racismo. Se você observar, com honestidade e senso de observação, verá que os verdadeiros trabalhadores, os que carregam o piano, são brasileiros natos e não têm qualquer nobreza no sangue.

Outra tese é a de que se trata de mecanismo psicológico de autojustificação. Ou seja, se algo não deu certo no Brasil, é porque o Brasil não tem jeito mesmo, e devemos deixar como está. Um raciocínio que leva ao comodismo. O cara nunca participa da vida pública, e quando surge um escândalo, comenta: “Não tem jeito, não há o que fazer...”

A terceira tese é a mania que temos de jogar a culpa na política, na estrutura estatal. No governo, enfim. Como as estruturas do Estado brasileiro são (e sempre foram) ocupadas pela elite econômica, tudo parece distante da população. Fica fácil, portanto, botar a culpa na política e esquecer o caráter que predomina nas relações entre particulares. Se uma grande empresa corrompe um servidor público, a culpa é da política. 

Não se fala no corruptor.
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Ah, mas os europeus... Temos uma visão boba (infantil, eu diria) de que tudo na Europa e nos Estados Unidos funciona maravilhosamente. Que todos são honestos. Que os problemas são insignificantes.

Pois bem. No momento em que você lê este texto no Noroeste, eu estou na Alemanha. Posso garantir que eles, os alemães, também têm muitos problemas. Diferentes dos nossos, é claro. Talvez a diferença esteja na forma como eles encaram os problemas. Não procuram culpados, e jamais dirão que os alemães são incapazes de resolvê-los. E também não
procuram a perfeição em outros países. Eles dizem apenas: “Se algo precisa ser feito, nós, alemães, faremos”.

Entre os alemães, alguém vai para a vida pública para contribuir, ainda que apenas por algum tempo. Ser honesto na vida privada e na vida pública é algo muito natural. Não é virtude a ser elogiada. Não precisa medalha! Por aqui jamais existirá um juiz federal conspirador e antiético, como aquele que se tornou famoso no Brasil. Seria desmascarado em
poucos dias, pelos próprios alemães. Não seria necessária a ajuda de um norte-americano. Esta é uma diferença clara. Para eles, é inadmissível a confusão entre o serviço público
e o interesse privado.
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Gostar de ser brasileiro não significa gostar dos políticos ou de empresários corruptos. Pelo contrário. É valorizar nossa gente, nossa língua, nossa natureza, nossas artes, e acreditar que somos capazes de resolver nossos problemas e fazer a nossa história. Fazer comparações depreciativas é bobagem. Apenas faz com que nos sintamos humilhados. O que não resolve nada, evidentemente.

Um bife argentino, por favor

Sempre tive uma grande admiração pela Argentina. Aliás, já cruzei seu território montado num valoroso Chevette. Acredite: num Chevette, motor 1.5! Mas a minha admiração não é só pelo seu relevo e paisagens. A Argentina tem mar, planícies, cordilheira e tudo o mais para encantar os olhos. Mas principalmente é um país diferente em termos culturais e já foi uma das maiores economias do mundo. 

Dizia-se, algumas décadas atrás, que a Argentina era a quarta economia do planeta. O Brasil, na época, era uma república de bananas, regida por militares, procurando desesperadamente um caminho para o desenvolvimento. Mas a Argentina, todos diziam, já era tida como “primeiro mundo”. Dava uma inveja!

Agora, em 2019, a crise não dá folga. Está literalmente arrasando com a Argentina. Em todos os setores, há um desalento profundo. Se você viajar para as províncias vizinhas (e não ficar apenas no supermercado comprando vinhos) verá que há um desencanto, uma desesperança tomando conta dos argentinos.

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Veja um exemplo: só nos primeiros cinco meses deste ano o consumo de carne bovina entre os “hermanos” caiu 12,1%, conforme foi divulgado pela Câmara da Indústria e Comércio da Argentina. Nos anos anteriores também houve queda, embora menor. Imagine o quanto deve ser duro para um argentino reduzir o consumo de carne! Logo a maravilhosa carne argentina!

Embora com menor intensidade, o Brasil também sente o impacto. Nossas exportações para a Argentina sofreram queda acentuada nos últimos anos. A boa notícia é que o efeito “cascata”, previsto por alguns economistas, não nos afetou. A crise é deles e não contagiou os países vizinhos. Por ora.

O que se vê por lá? Desemprego elevado, inflação, pedido de ajuda ao FMI, peso desvalorizado, reservas internas baixas e economia parada. Além disso, tem a dependência de produtos primários. A indústria defasada e sem condições de reagir.

Para fazer frente a isso, o governo fez algo parecido com o que está sendo feito no Brasil, o tal “ajuste fiscal”, que pode ser assim resumido: corte nos gastos, elevação de impostos, redução da participação do Estado na economia (privatizações), elevação dos juros para atrair investimentos e desvalorização da moeda.

Para os liberais, tinha tudo para dar certo. Não deu. Juros altos não trouxeram investimentos externos e não estimularam a modernização da indústria pelos empresários locais. O corte de gastos do governo reduziu o acesso da população (já empobrecida) aos serviços públicos. O Estado sem reservas e sem disposição de estimular a economia (que dizem ser coisa da iniciativa privada). A moeda desvalorizada impede bons negócios com o exterior. O emprego desaparece. A produção também. Sem renda, a população consome menos. Comércio e indústria fecham as portas. Um círculo vicioso cujas consequências são fáceis de imaginar. Uma coisa puxa a outra. Para baixo.

Pois essas fórmulas mágicas já causaram estragos em muitos países. A realidade vem mostrando que políticas de austeridade são suicidas, embora tão simpáticas inicialmente. Na verdade, elas engessam a economia e reduzem a circulação do dinheiro. Caminho certo para a recessão, para a paralisação do país. Quem paga o pato é o cidadão comum, o qual, no caso argentino, está ficando sem o chorizo e a parillada. Nada pode ser mais triste...