Bodoque

Na novela “Bom Sucesso”, da Globo, Antônio Fagundes interpreta um dono de uma editora que descobre estar com câncer. O diagnóstico médico é entregue, por engano, a uma jovem que, a partir deste fato, torna-se sua amiga. O editor, então, passa a indicar leituras e livros clássicos da literatura mundial para a jovem. Pelo que fiquei sabendo, ela está encantada com o mundo que descobriu, o mundo dos livros. E os telespectadores estão conhecendo grandes autores da história da humanidade. Na verdade, em cada informação do personagem está uma sugestão de leitura.

Não é bacana? Estou até pensando em assistir alguns capítulos da novela antes que alguém do governo federal resolva proibi-la. Afinal, livro é uma coisa tão estranha para eles...

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Pescadores do Uruguai e o do Pessegueirinho, comemorem! Estudos recentes da Universidade de Bordeaux, na França, trouxeram novas informações sobre os neandertais — aqueles hominídeos que antecederam o homo sapiens. Sempre tivemos a ideia que os neandertais eram seres sem inteligência, uma espécie quase totalmente animal. Eles viveram há 80.000 anos, mais ou menos. Parece que foi ontem. Pois os novos estudos indicam que eles tinham um grau de percepção avançado justamente porque eram pescadores. Para a ciência, pescar envolve uma série de funções auditivas e visuais, um certo desenvolvimento perceptivo acerca da natureza e do comportamento dos peixes. Isso representou um diferencial em relação aos hominídeos anteriores. Pescar, pois, foi um passo importante no nosso desenvolvimento intelectual. 

A partir de agora, quando a tua mulher reclamar da próxima pescaria, apenas explique: “Amor, estou apenas colaborando para a evolução humana. Sou uma espécie de neandertal, entende? Em processo de evolução. Pergunte pros caras de Bordeaux...” E saia de perto antes que ela responda: “Eu sempre achei que você não era um neandertal, e sim um troglodita...”

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Fato interessante vem acontecendo em diversos lugares do país. Estão se tornando corriqueiros os concursos de bodoque. Isso mesmo, o nosso velho bodoque, também conhecido como funda, estilingue, atiradeira ou setra. Escolas e CTGs do sul do Brasil buscam, desta forma, preservar um esporte tradicional, anterior à era tecnológica.

Lembro que usávamos pedras recolhidas na estrada, pelotas de barro, bolinhas de gude ou esferas de aço de rolamento. Muitas vezes para matar passarinhos e tentar fazer uma passarinhada. Mas as provas que mencionei não tem nada disso. São provas com alvo, é claro. O bodoque não é exclusividade nossa, existe em todo o Brasil e no mundo. Consta que na Itália existe um campeonato nacional de bodoque. 

Se você tem mais de 30 anos, certamente já teve um bodoque em casa. Talvez por tudo isso é que Chico Buarque, recordando sua infância, escreveu a música “João e Maria” com o seguinte verso: “Guardava o meu bodoque e ensaiava um rock para as matinês...”. Quem, afinal, com mais de trinta anos, não experimentou isso?

Drogas e venenos

Cidades interioranas, como Santa Rosa, são cercadas por lavouras. É fácil entender; nossa economia tem tudo a ver com agricultura, existe a partir dela. Em alguns locais, os limites da cidade se confundem com áreas agrícolas. Até aqui, nada demais.

Mas pelas notícias recentes, é bom começar a pensar no assunto. Nos primeiros sete meses deste ano quase 200 novos registros de produtos químicos foram liberados para uso em lavouras no Brasil. No ano passado foram quase 480. Deste total, 50 são considerados “extremamente tóxicos”. São herbicidas, fungicidas e acaricidas. Apenas 5% desses produtos são fabricados no Brasil. Não estou inventando nada. A informação é do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Há duas posições conflitantes a respeito.

Uma delas é a do agronegócio, da indústria química e do governo. Dizem que essa liberação quase descontrolada fará o preço dos insumos agrícolas cair. É provável que sim, em razão da oferta maior. O governo se defende dizendo que novos produtos, tecnologicamente avançados, podem até ser menos tóxicos.

A outra posição diz que estamos liberando produtos proibidos mundo afora (30% deles). É verdade, mas isso não quer dizer que a Europa seja muito ambientalista. Na verdade, muitos são químicos (ou produtos ativos) sem qualidade e de efeitos imprevisíveis. Veja o caso da mortandade das abelhas e das vinícolas que estão apresentando queda na produção. Entidades ambientalistas garantem que alguns desses produtos são tóxicos para organismos aquáticos e insetos em geral. Isso sem falar no envenenamento do próprio produtor rural, algo que acontece paulatinamente e não de uma hora para outra.

Enquanto esse debate acontece, quem vive próximo de lavouras deveria tomar alguns cuidados, o que inclui tapar o nariz ou fugir de casa em época de pulverização. O seguro morreu de velho.

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O “Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira”, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) foi atacado por Osmar Terra e outros integrantes do
governo, que tentou até censurar a pesquisa. Você deve estar lembrado. A questão era a seguinte: o governo tentou alegar que há uma epidemia de drogas no Brasil.

Pois finalmente o relatório foi liberado na última terça-feira, dia 13. Ele mostra que 3,2% do brasileiros experimentaram drogas ilícitas no ano anterior à pesquisa. Quanto às drogas legalmente vendidas, apontou a redução no consumo de tabaco e elevação no consumo de bebidas alcoólicas (especialmente entre os jovens). Revelou ainda que há um grupo grande de consumidores compulsivos de remédios (sem receita) que também podem ser considerados neste grupo.

Podemos, como sociedade, reduzir isso? Claro! Afinal, todas as sociedades, ao longo do séculos, enfrentaram esse problema. O que não podemos é atacar uma instituição séria como a Fiocruz. A polêmica, na verdade, resultou em nada. E a conclusão da pesquisa é simples. Não há epidemia de drogas no Brasil.

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Lembrei de uma frase, lá no meu tempo de estudante, pichada no muro da escola: “Não se torne dependente de maconha. E também não fique em dependência de biologia e matemática”. As duas disciplinas eram as nossas torturas.

Em algum lugar do passado

A ideia inicial de Borges de Medeiros era instalar na região de Santa Rosa apenas pessoas de origem nacional. Isso lá no início do século passado. O plano “nacionalista” não deu certo. O que realmente acabou acontecendo foi uma colonização mista. Quando, lá em 1913, o coronel Bráulio de Oliveira solicitou a criação da Colônia de Santa Rosa, havia
por aqui apenas posseiros e alguns exploradores esparsos, às voltas com matas densas e animais. Bráulio de Oliveira, proprietário de grandes áreas na região que vai do atual Bairro Cruzeiro até o rio Santa Rosa, criou e implementou a colonização, que foi diferente daquela anteriormente empregada em Guarani e Santo Cristo, estas caracterizadas por linhas traçadas sobre o território e núcleos com apenas uma etnia.

O núcleo colonial começou a existir em 1914, e só mais tarde recebeu o nome de 14 de Julho. Mas data de 1876 sua criação como distrito de Santo Ângelo. Foi nas duas primeiras décadas do século passado que, de fato, começaram a chegar os colonos alemães e italianos cujos descendentes estão por aí até hoje. 

É fácil entender os conflitos que surgiram. Os italianos, alemães e poloneses não tinham qualquer privilégio. Os colonos nacionais recebiam maior apoio do governo e podiam escolher as melhores áreas agrícolas.
Fico imaginando a escolha do local:
— Coronel, prefiro este pedaço no morro, perto do rio.
— Mas e aquela área que eu reservei pra ti, guri?
— Entrega pros gringos. Lá tem onças...
Mais ou menos assim. Sem falar nas brigas de boteco quando alguém se sentia ofendido por comentários feitos em alemão, mesmo sem entender exatamente o que tinha sido dito. O resultado, pois, é que, ao contrário de outras colonizações do Noroeste do Estado (como Santo Cristo, por exemplo), Santa Rosa foi uma colônia marcada pela colonização mista, ou seja, uma mistura de etnias. Hoje entendemos o quanto isso foi positivo.
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Se no início era apenas agricultura extrativista e de subsistência, aos poucos o município viu aparecerem as indústrias. No começo, madeireiras, fábricas de tijolos e moinhos. 

Em poucos anos, os empresários da época já tinham modificado bastante esse perfil. E como não havia atrações outras, uma das indústrias que mais cresceu foi a das bebidas alcoólicas, veja só! Segundo registros, em 1935 já existiam duas fábricas de gasosa, 42 fábricas de cachaça, 15 fábricas de cerveja e duas cantinas de produção de vinho. Mas não tire conclusões apressadas, por favor. Grande parte dessa produção de água que passarinho não bebe era vendida em outras regiões do Estado. Se os santa-rosenses consumissem tudo o que produziam passariam o ano inteiro embriagados...

Quando olhamos para o passado, compreendemos que o mundo muda no rastro das tecnologias. Além das indústrias antes citadas, Santa Rosa já foi sede de empreendimentos como funilarias, curtumes, carpintarias e tipografias. Espécies de trabalhos artesanais que foram suplantados com produtos vindos de longe, pela ferrovia ou pela estrada que nos liga a Santo Ângelo.

O município foi instalado em 10 de agosto de 1931 por decreto de Flores da Cunha. É claro que houve um importante movimento pela emancipação. Mas o argumento mais forte para sua criação do novo município estava diante dos olhos de todos: uma terra marcada pelo pioneirismo, pelo espírito desbravador e pela economia que crescia muito rapidamente. Não havia outra solução.