Relações Públicas

Entre as coisas que aprendi a valorizar na vida está o bom relacionamento. Até mesmo com estranhos. Aquele “bom-dia” no elevador, por exemplo, tem uma força mágica. É como derrubar um muro. Especialmente se o dia, propriamente dito, não está lá essas coisas. Como vou saber se a pessoa à minha frente está num dia bom? Talvez esteja com um problema financeiro, ou alguma encrenca com a saúde. Um parente doente, que sabe? Por cautela, é bom derrubar o muro. 
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Na vida em sociedade, algumas pessoas têm importância fundamental. Não estou falando de gente rica (que normalmente se acha importante) ou de alguma autoridade (que é importante pelo cargo que exerce). Estou falando de gente simples, às voltas com suas atividade rotineiras, mas que são muito importantes.
Veja o caso do garçom. Tratar bem o garçom é garantia de bom atendimento, comida de qualidade e chope bem gelado. Sem falar que ele conhece todas as fofocas da cidade, e pode livrá-lo de situações constrangedoras. Um garçom discreto é exigência da profissão. Mas um garçom amigo às vezes pode deixar a discrição de lado e te dar informações valiosas. 
Outra amizade importante é o açougueiro. Imagine se você tem inimizade com o açougueiro do bairro! Vai levar carne de pescoço por filé. E aquela picanha “macia, macia” será mais dura que a sola do sapato que você usa há dois anos. Amizade e civilidade com açougueiro é quase uma questão de sobrevivência. 
Outra figura importantíssima é o mecânico. Eu, por exemplo, não entendo nada de automóvel. Sei apenas onde estão os pedais e o guidão. Aquilo que está embaixo do capô é um grande mistério. A rebimboca da parafuseta, que alguns dizem que existe, pra mim é um tipo de macarrão. Lembra do macarrão-parafuso? Pois é. Um mecânico de confiança é tipo um médico de família. Você confia, e pronto.
Porteiro de boate. Ah, essa figura é mesmo fundamental. Ele diz como está o clima lá dentro antes de você entrar. Depois, aponta o melhor lugar. E, ao final da festa, se houver algum rebuliço, ele estará ao seu lado. Trate bem essa figura! 
Guarda de trânsito, então, nem se fala! Um movimento arriscado com o carro pode resultar em multa. Mas um guarda amigo será, sempre, um conselheiro. Jamais um aplicador de multa insaciável. 
Agora, avalie, por sua conta, a importância de pessoas como o lavador de carro, a faxineira, o vendedor de flores, o eletricista, o entregador de jornais, e assim por diante. Vivemos num mundo rico de experiências. Ocorre que muitas vezes nem notamos essa riqueza...
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Dias atrás, um amigo sentou num bar e o garçom, conhecido seu, aproximou-se:
— Boa noite, o que o senhor toma?
— Eu tomo vitamina C pela manhã, tomo o ônibus para o trabalho, e uma aspirina quando tenho dor de cabeça.
— Desculpe, mas não fui claro. O que é que o senhor gostaria?
— Eu gostaria de ganhar na loteria e viver no Caribe.
— Eu só quero saber o que o senhor deseja beber. 
— Ah, sim... Vejamos... o que é que você tem?
— Eu? Nada, não. Só estou um pouco chateado porque o Inter perdeu o campeonato gaúcho...