Orçamentos

Se você não sabe a diferença entre o orçamento público e o orçamento familiar, seria importante refletir a respeito. Digo isso porque há confusão a respeito. Temos visto, com frequência, algumas autoridades dizendo que o governo deve cuidar de suas contas como um pai de família cuida das contas do lar. Sob o ponto de vista do zelo que devemos ter com o assunto, até podemos concordar. Mas sob a forma como são constituídos esses orçamentos, a coisa fica bem diferente.

Se está sobrando mês no fim do seu salário, se a grana já não cobre as despesas da casa, é preciso tomar providências. Se um pai de família descobre que está entrando numa espiral de endividamento, não pode ficar sem fazer nada. Pelo menos, é este o cuidado e o zelo que se espera dele. Assim, para que seu salário volte a cobrir as despesas da casa, é preciso cortar os supérfluos. Coisas como aquela viagem à praia, a TV por assinatura, o último modelo de celular, o novo guarda-roupas e outras despesas não urgentes podem ser deixadas de lado. É a forma mais razoável de colocar as contas em dia e recuperar o equilíbrio (para o pai de família dormir em paz outra vez). 

Sair do endividamento é doloroso. Já passei por isso. Mas é possível e requer um certo planejamento e alguma determinação. É assim que a coisa se resolve. Um pai de família não pode, por exemplo, fazer seu salário subir de uma hora pra outra. Aí está a diferença.
***
O orçamento do governo, porém, é uma coisa muito diferente. Mas também exige zelo e cuidado, evidentemente. O governo tem despesas e receitas. Pode até reduzir as despesas do seu orçamento, mas este é o caminho menos inteligente e também o mais difícil. Mas se a receita já não cobre o orçado, surge uma situação que todo governo enfrenta.

Ao contrário de você (de nós todos que recebemos salários) o governo pode alterar suas receitas ao mesmo tempo em que controla as despesas. Vamos entender de forma simples. Se a economia está paralisada, e em algumas áreas se encolhendo, fica claro que as receitas do governo também estão sendo reduzidas. Sendo o governo o principal “motor” da economia, se este “motor” estiver em marcha lenta, quase parando, é evidente que as receitas vão ladeira abaixo. Do lado das despesas, cortar gastos não é fácil. Às vezes, quase impossível. Fazer cortes em educação, saúde e segurança (só para citar três exemplos) é extremamente difícil e pode ser até algo perverso para a população.

Assim, como o mais ingênuo estudante de economia sabe, fazer a economia girar é a fórmula indispensável, pois só ela pode manter, ou ampliar, as receitas do governo. É por isso que o Estado (ou governo, se você preferir) é o “motor” da economia.
***
Ao contrário de um pai de família (que só pode fazer o ajuste no lado da despesa), o governo pode, e deve, agir especialmente no lado da receita. E a receita, quando falando de orçamento de um país, está diretamente relacionada com a dinâmica da economia. Se ela estiver parada, é pura perda de tempo um ministro da economia ficar chorando em frente
às câmeras de TV tentando encontrar culpados. É claro que gastos supérfluos e supersalários devem ser cortados. É o mínimo que se espera. Mas isto não salva um governo. O que salva é uma economia dinâmica, que não temos neste momento. Pelo visto, para que alguma venha a acontecer, o ministro da economia primeiramente precisa aprender a distinguir
entre o orçamento familiar e o orçamento governamental.