O tal complexo

A cada crise política no Brasil parece que o nosso complexo de vira-latas ressurge com força total. Trata-se daquele sentimento pelo qual o brasileiro ataca a si mesmo, oculta suas próprias virtudes e enaltece os cidadãos de outros lugares do mundo. São aqueles comentários tipo “Ah, se fosse na Dinamarca, a coisa não ficava assim...”.

Há várias teorias a respeito. Uma é que o nosso racismo dissimulado impede que a gente tenha orgulho de ser brasileiro. Afinal, para muitos, “brasileiro” é uma palavra usada para acusar alguém de folgado ou vagabundo. Puro racismo. Se você observar, com honestidade e senso de observação, verá que os verdadeiros trabalhadores, os que carregam o piano, são brasileiros natos e não têm qualquer nobreza no sangue.

Outra tese é a de que se trata de mecanismo psicológico de autojustificação. Ou seja, se algo não deu certo no Brasil, é porque o Brasil não tem jeito mesmo, e devemos deixar como está. Um raciocínio que leva ao comodismo. O cara nunca participa da vida pública, e quando surge um escândalo, comenta: “Não tem jeito, não há o que fazer...”

A terceira tese é a mania que temos de jogar a culpa na política, na estrutura estatal. No governo, enfim. Como as estruturas do Estado brasileiro são (e sempre foram) ocupadas pela elite econômica, tudo parece distante da população. Fica fácil, portanto, botar a culpa na política e esquecer o caráter que predomina nas relações entre particulares. Se uma grande empresa corrompe um servidor público, a culpa é da política. 

Não se fala no corruptor.
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Ah, mas os europeus... Temos uma visão boba (infantil, eu diria) de que tudo na Europa e nos Estados Unidos funciona maravilhosamente. Que todos são honestos. Que os problemas são insignificantes.

Pois bem. No momento em que você lê este texto no Noroeste, eu estou na Alemanha. Posso garantir que eles, os alemães, também têm muitos problemas. Diferentes dos nossos, é claro. Talvez a diferença esteja na forma como eles encaram os problemas. Não procuram culpados, e jamais dirão que os alemães são incapazes de resolvê-los. E também não
procuram a perfeição em outros países. Eles dizem apenas: “Se algo precisa ser feito, nós, alemães, faremos”.

Entre os alemães, alguém vai para a vida pública para contribuir, ainda que apenas por algum tempo. Ser honesto na vida privada e na vida pública é algo muito natural. Não é virtude a ser elogiada. Não precisa medalha! Por aqui jamais existirá um juiz federal conspirador e antiético, como aquele que se tornou famoso no Brasil. Seria desmascarado em
poucos dias, pelos próprios alemães. Não seria necessária a ajuda de um norte-americano. Esta é uma diferença clara. Para eles, é inadmissível a confusão entre o serviço público
e o interesse privado.
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Gostar de ser brasileiro não significa gostar dos políticos ou de empresários corruptos. Pelo contrário. É valorizar nossa gente, nossa língua, nossa natureza, nossas artes, e acreditar que somos capazes de resolver nossos problemas e fazer a nossa história. Fazer comparações depreciativas é bobagem. Apenas faz com que nos sintamos humilhados. O que não resolve nada, evidentemente.