Cerco Policial

Depois de quase um ano — onze meses, na verdade — Dudu e Isadora se decidiram. Foram meses de telefonemas furtivos e mensagens privadas no Whatsapp, mas chegara o grande dia. Um motel discreto fora da cidade. Ela muito nervosa, pensando no noivo que estava no trabalho. Ele, um pouco mais calmo. A namorada viajara para Ijuí para ver a mãe diabética e cardíaca.

Das cinco às sete, era o combinado. Como naquele filme. Ou das seis às oito, Isadora já não lembrava direito, tamanho o nervosismo. Distraída, olhava a TV ligada no quarto. Primeira experiência naquele estranho ambiente. Dudu mexia as pedras de gelo no copo de uísque. Era sua técnica para manter a calma. Mas sentia-se feliz. Estava com Isadora, longe dos olhos do mundo, enquanto a água da jacuzzi esquentava. A água quente também fazia parte da técnica.

De repente, ruídos inesperados do lado de fora. Vozes e gritos. A sirene de um carro policial. Mais uma. Então eram dois carros! Logo a seguir, outra sirene. Eram três carros! Os dois se olham sem saber o que fazer. “Meu Deus, o que é isso?”, disseram juntos. 

— A TV! Olha a TV! — gritou Isadora, tremendo.

— O que foi? — perguntou Dudu derrubando o copo de uísque.

Isadora, que já ouvira parte da notícia, explicou:

— Assaltaram um banco! Está havendo perseguição! Pelo que entendi, os bandidos estão aqui por perto. Talvez escondidos em algum mato próximo. Talvez dentro do motel, como disseram os policiais. Socorro, Dudu! 

Dudu também queria dizer “Socorro, Isadora!”, mas se conteve. Ele era homem e tinha cinco anos mais que Isadora. Precisava manter a calma.

— Os caras da TV estão aí fora! Estão transmitindo tudo! 

A situação se complicava. Dudu olhou para a jacuzzi e pensou: “Essa droga podia ter esquentado mais rápido”. 

— Vamos ficar quietos e esperar — disse.

— Nada disso! Esse cerco policial pode durar dias!

— E se sairmos agora, como se não soubéssemos de nada?

— Ah, é? Com transmissão ao vivo? O cinegrafista é meu primo!

Dudu, então, teve a ideia salvadora:

— Vou ligar para o gerente. Ele é meu amigo.

— Como, assim? Teu amigo?

Dudu desconversou e ligou. Isadora ficou com uma pulga atrás da orelha. Então foi por isso que o celular do Dudu ligou automaticamente na rede wi-fi quando chegaram...  

Uma hora mais tarde, graças aos préstimos do gerente, os dois conseguiram sair furtivamente pela porta de serviço. Com escolta policial, mas sem câmeras de TV. Ele vestido de eletricista, com boné da Sicredi enfiado na cabeça até à orelha. Ela com uniforme branco de camareira e com uma toalha sobre a cabeça onde estava escrito: “Volte sempre”. 

Isadora nunca mais ligou nem respondeu às mensagens de Dudu. Agora, ao entardecer, na hora do uísque, Dudu recorda com alívio tudo o que aconteceu, e diz a si mesmo: “Uma pena, uma pena mesmo... A jacuzzi estava quase no ponto...”