Leituras e presentes

— O senhor é o Papai Noel de verdade?
— Claro, guri! Tu não tá vendo minha barba e minha roupa?
— Eu vi, mas a voz é igual à do meu tio Duda.
— Ora, vai ver ele também nasceu no Polo Norte...
— Não. Ele nasceu em Cândido Godói...
— Que coincidência ter a voz igual à minha... Ôh-Ôh-Ôh... 
— E por que tu está com os sapatos dele? Eu conheço esse sapato. Está surrado no pé esquerdo que o tio Duda usa pra subir no cavalo.
— Ah.. eu acho....
— E essa latinha aí do seu lado? O tio Duda também bebe cerveja Polar...
— Escute, guri, vamos mudar de assunto. O que tu quer ganhar no Natal? Aproveita essa minha visita porque estou com pressa.
— Humm, tá bem. Quero ganhar um botijão de gás, um galão de gasolina e cinco quilos de picanha.
— Hei! Tá pensando que Papai Noel tem dinheiro sobrando? Tá louco? Vê se reduz o tamanho dessa encomenda!
— Olha, Papai Noel, nós precisamos nos entender. Vou deixar claro... Ou consegue o que eu pedi ou eu conto pra todo o bairro que tu é o tio Duda...
— Ah, desgraçado! Tá bem, vou dar um jeito...

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Você sabe que existe uma avaliação em nível mundial chamada “Programa Internacional de Avaliação de Estudantes”, conhecida como PISA. Pois esse programa divulga, periodicamente, como está o desenvolvimento intelectual de adolescentes em 79 países. Na avaliação deste ano o Brasil ficou entre as 20 piores colocações no ranking das três áreas analisadas (matemática, ciências e leitura). Entre os anos 2000 e 2012 o Brasil teve expansão do número alunos cursando o ensino médio, mas o desempenho no PISA melhorou pouco. Estamos mal nas três áreas, embora a quantidade de alunos tenha se elevado.

O ministro da educação, que até agora não sabe o que fazer por lá, obviamente botou a culpa no PT, como se isso fosse uma resposta. Enquanto reduz os investimentos em educação, o Brasil sonha com uma reação voluntária e individual dos alunos, uma espécie de milagre inesperado. Nada vai acontecer, pois. Para uma simples comparação, as notas máximas do PISA são da China, que aposta todas as fichas na educação de sua população. Vale lembrar que a população da China está perto de 1,4 bilhão de pessoas. O esforço educativo existe há décadas, envolvendo gerações, e por isso dá resultados espetaculares. Por aqui, achamos mais conveniente fechar escolas, achincalhar professores e reduzir investimentos. Não vamos a lugar nenhum...

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Por falar em valores culturais e educacionais, você já pensou em fugir daquela chatíssima lista de presentes de Natal envolvendo celulares, bermudas, garrafas de vinho e outras coisas óbvias? Pois eu tenho uma sugestão que pode surpreender seu amigo secreto. Já pensou num livro? Isso mesmo, um livro, aquele presente que irá permanecer por anos na estante, que poderá ser lido, relido e emprestado e que poderá abrir a cabeça do seu amigo para novas ideias?

Pois fica a dica, a sugestão. Ainda restam alguns dias até o Natal e você pode procurar à vontade. Há muitas opções de ótimos livros. Você pode escolher com calma. Coloque uma bela frase como dedicatória no livro e esteja certo: seu amigo (ou amiga) vai agradecer o presente por um longo tempo.

De tudo um pouco

O encerramento das atividades da RBS-TV em Santa Rosa faz parte de uma grande reengenharia no grupo de empresas comandado pela família Sirotsky. As causas são muitas e essa crise vem de longe (problemas tributários e a crise econômica são as mais evidentes). Primeiramente, a empresa vendeu todo o complexo que mantinha em Santa Catarina. Em determinado momento, passou a apostar em assinaturas digitais de seus jornais. Demitiu muita gente também nas rádios Gaúcha e Atlântida. Estima-se que o total de demissões em dois anos já passa de 400 pessoas. Vendeu jornais que mantinha no interior do Estado. Neste ano, passou a fechar as sucursais do interior, entre as quais a de Santa Rosa. Consta que o faturamento local já não mantinha a unidade. 

Se todos esses passos traumáticos vão fazer o grupo RBS sobreviver, ou se será vendido a grupos econômicos de fora do Estado, são perguntas que todos se fazem.

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Por falar em encerramento, Santa Rosa não tem mais unidade da Receita Estadual. Agora, para atendimento direto e solução de problemas os santa-rosenses terão de se deslocar a Santo Ângelo. A justificativa é o plano de “regionalização” dos órgãos do Estado. Mas para nós, que vivemos por aqui, é uma perda considerável.

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O caso mais bizarro envolvendo “encerramento” de atividades aconteceu nos últimos dias. A unidade de atendimento do IPE-Saúde está fechada por falta de funcionários. A funcionária remanescente se aposentou e os usuários encontram a porta fechada. Dizem que é temporário. Realmente não dá pra entender...

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Paralelamente à greve do magistério público estadual, aumenta o volume das discussões sobre fechamento de escolas na região. Há explicações de todo tipo. Desde a redução do número de crianças no meio rural até a necessidade de junção de turmas nas escolas urbanas. A coisa é realmente complexa. Por trás de tudo está, de fato, a crise do Estado. Há também a desconfiança de que medidas de economia poderão resultar, num futuro próximo, no fechamento da Coordenadoria Regional de Educação sediada na cidade. Por ora, são apenas comentários de bastidores, porém a cada dia mais fortes.

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A greve do magistério, desta vez, veio com força redobrada pois o pacote de reformas do governo Leite é mesmo um remendão. O movimento ganhou adesões de outras classes de servidores que também estão ameaçadas, e ainda de associações de municípios e de entidades empresariais. Afinal, ninguém é tão ingênuo a ponto de não perceber que o achatamento salarial (e os parcelamentos) também afetam os municípios e, de modo especial, o comércio. Parece que, finalmente, e sentindo no próprio bolso, também mostram sensibilidade com a penúria dos servidores.

Todos estão percebendo que a crise do RS deve ser melhor interpretada. O pacote proposto tem pontos sensíveis, que podem realmente ajudar. Mas há pontos inconstitucionais (ilegais, portanto) que podem mergulhar o Estado em nova avalanche de ações judiciais. A falácia é deixar subentendido que tudo se resolve mexendo com os servidores (alguns já têm perdas salariais superiores a 40%). Se achatar salário de servidor resolvesse, o Estado já estaria salvo. O buraco é mais embaixo, como dizia minha avó.

O resultado disso tudo é que a Assembleia Legislativa vai querer alterações fortes no projeto e provocar o debate mais necessário, aquele que envolve tributos, economia parada, informalidade no mundo do trabalho, desindustrialização e outras “coisitas” que devem ser discutidas. Só então poderemos ter esperanças.

A História viva perto de nós

Nós, aqui da região Noroeste, temos familiaridade com os índios caingangues (kaingang, como preferem alguns). Eles são, de certa forma, a nossa ligação com a América pré-colombiana. Inicialmente, viviam numa área muito grande, desde o rio Piratini até o oeste do Estado de São Paulo. As primeiras expedições contra esses indígenas tinham por objetivo torná-los escravos. Já a partir do século 18, as investidas tinham como propósito tomar suas terras. As expedições de conquista acabaram delimitando a área onde vivem (oeste do RS, SC e PR).

Pois em meados de 1850 houve conflito entre grupos de caingangues, parte chefiados pelo cacique Nonoai e parte pelo cacique Doble. As guerras entre eles só terminaram quando, premidos pela colonização branca, viram suas terras reduzidas e aceitaram formar aldeamentos. Isso foi particularmente difícil para eles, pois caingangue significa “povo do mato”. As duas cidades gaúchas que levam seus nomes ficaram como lembrança desse período.

Em toda esta vasta região eles estão presentes. O curioso é que a linguagem deixou muitas marcas que, muitas vezes, nem percebemos. São de origem caingangue os nomes de cidades como Cambé, Xanxerê, Chapecó, Goioerê, Erechim e Erebango. Condá era o nome de um líder caingangue. Hoje temos, em Chapecó, o estádio de futebol chamado “Arena Condá”.

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Segundo os linguistas, a linguagem caingangue pertence ao grupo “Jê”, enquanto a linguagem guarani pertence ao grupo “Tupi” (falada no litoral brasileiro). Ou seja, são de “famílias” diferentes. A língua caingangue é rica e complexa. É bonito perceber que os caingangues mantêm, nessa longa história, orgulho de seus traços culturais e de suas lendas acerca da origem da vida. Talvez esse sentimento de valor seja a força que os mantém unidos e, de certa forma, resistentes, até os dias de hoje, à colonização.

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Aliás, o português falado no Brasil está repleto de palavras indígenas, a maioria delas vindas do grupo linguístico tupi-guarani. Podemos dizer que aquele português falado em Portugal, que chegou até nós a partir de 1500, foi vivamente enriquecido pela linguagem indígena. A grande maioria de plantas e animais que conhecemos têm nomes indígenas. Até porque, quando os portugueses aqui chegaram, algumas dessas espécies sequer eram conhecidas na Europa. São exemplos a capivara, a cutia, o jabuti, o jacaré, o maracanã, o tucano, a paca e a pitanga, entre tantos outros nomes que usamos cotidianamente. 

Quando o gaúcho fala de crianças, raramente lembra que “guri” vem do tupi-guarani, com o sentido de algo terno, brando e afetuoso. Guri ou guria, portanto, originalmente são formas carinhosas de designar crianças.

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Talvez a palavra mais curiosa que incorporamos no português é “mingau”. Chamamos de “mingau” aquela papinha com que alimentamos crianças muito pequenas. O que poucos sabem é que os tupinambás, na época do descobrimento, quando matavam seus inimigos (outros índios ou os portugueses), esquartejam-nos para comê-los após um longo cozimento. As vísceras, o cérebro e a língua do morto eram triturados e servidos às crianças. Aquele preparado, que hoje nos causa nojo, era chamado de “mingau”. Fico até imaginando uma criança tupinambá reclamando: “Mãe, esse pedaço de cérebro ficou mal passado!”.

A palavra “mingau” tem, pois, tem esse significado e se incorporou à nossa língua. Mas, para nós, a receita tem outros ingredientes. Felizmente!

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