Um bife argentino, por favor

Sempre tive uma grande admiração pela Argentina. Aliás, já cruzei seu território montado num valoroso Chevette. Acredite: num Chevette, motor 1.5! Mas a minha admiração não é só pelo seu relevo e paisagens. A Argentina tem mar, planícies, cordilheira e tudo o mais para encantar os olhos. Mas principalmente é um país diferente em termos culturais e já foi uma das maiores economias do mundo. 

Dizia-se, algumas décadas atrás, que a Argentina era a quarta economia do planeta. O Brasil, na época, era uma república de bananas, regida por militares, procurando desesperadamente um caminho para o desenvolvimento. Mas a Argentina, todos diziam, já era tida como “primeiro mundo”. Dava uma inveja!

Agora, em 2019, a crise não dá folga. Está literalmente arrasando com a Argentina. Em todos os setores, há um desalento profundo. Se você viajar para as províncias vizinhas (e não ficar apenas no supermercado comprando vinhos) verá que há um desencanto, uma desesperança tomando conta dos argentinos.

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Veja um exemplo: só nos primeiros cinco meses deste ano o consumo de carne bovina entre os “hermanos” caiu 12,1%, conforme foi divulgado pela Câmara da Indústria e Comércio da Argentina. Nos anos anteriores também houve queda, embora menor. Imagine o quanto deve ser duro para um argentino reduzir o consumo de carne! Logo a maravilhosa carne argentina!

Embora com menor intensidade, o Brasil também sente o impacto. Nossas exportações para a Argentina sofreram queda acentuada nos últimos anos. A boa notícia é que o efeito “cascata”, previsto por alguns economistas, não nos afetou. A crise é deles e não contagiou os países vizinhos. Por ora.

O que se vê por lá? Desemprego elevado, inflação, pedido de ajuda ao FMI, peso desvalorizado, reservas internas baixas e economia parada. Além disso, tem a dependência de produtos primários. A indústria defasada e sem condições de reagir.

Para fazer frente a isso, o governo fez algo parecido com o que está sendo feito no Brasil, o tal “ajuste fiscal”, que pode ser assim resumido: corte nos gastos, elevação de impostos, redução da participação do Estado na economia (privatizações), elevação dos juros para atrair investimentos e desvalorização da moeda.

Para os liberais, tinha tudo para dar certo. Não deu. Juros altos não trouxeram investimentos externos e não estimularam a modernização da indústria pelos empresários locais. O corte de gastos do governo reduziu o acesso da população (já empobrecida) aos serviços públicos. O Estado sem reservas e sem disposição de estimular a economia (que dizem ser coisa da iniciativa privada). A moeda desvalorizada impede bons negócios com o exterior. O emprego desaparece. A produção também. Sem renda, a população consome menos. Comércio e indústria fecham as portas. Um círculo vicioso cujas consequências são fáceis de imaginar. Uma coisa puxa a outra. Para baixo.

Pois essas fórmulas mágicas já causaram estragos em muitos países. A realidade vem mostrando que políticas de austeridade são suicidas, embora tão simpáticas inicialmente. Na verdade, elas engessam a economia e reduzem a circulação do dinheiro. Caminho certo para a recessão, para a paralisação do país. Quem paga o pato é o cidadão comum, o qual, no caso argentino, está ficando sem o chorizo e a parillada. Nada pode ser mais triste...

Entendendo melhor

Depois de meio ano de debates sobre a reforma da previdência, alguns pontos se tornaram claros para todos. Mas os debates, evidentemente, ainda não se esgotaram.

O tempo de contribuição acaba. Vale a idade mínima. Para o benefício integral, há que se trabalhar durante 40 anos (pelo menos). Se o trabalhador tiver tempos ociosos (entre um emprego e outro), ou períodos de desemprego, possivelmente jamais irá se aposentar.

A idade mínima (65 para homens e 62 para mulheres) irá aumentando de acordo com o aumento da expectativa de vida da população.

O cálculo do benefício levará em conta a média de todas as contribuições. Durante a vida de trabalho, especialmente no início, os salários são menores. Ou seja, ninguém irá se aposentar com o último salário.

Diminui para 50% o valor da pensão por morte, acrescido de 10% por dependente. O texto também restringe o acúmulo de aposentadoria e pensão. Poderá ser feita opção pelo valor maior (ou seja, a contribuição feita pelo cônjuge falecido, por exemplo, irá para o espaço).

O Benefício de Prestação Continuada, pago a idosos e deficientes em situação de miséria, passa a ser pago somente após os 70 anos. Existe a proposta de que esse valor possa ser de R$ 400 a partir dos 60 anos, sem correção futura e desvinculado do salário mínimo. 

Se o sujeito se aposentar e continuar trabalhando na mesma empresa, o empregador não pagará a multa de 40% e estará dispensado da contribuição de 8%. 

O regime de capitalização valerá para aqueles que entrarem no mercado de trabalho. Eles (coitados!) terão de fazer a própria poupança (em algum banco), sem qualquer contrapartida dos empregadores ou do Governo. É aí que a porca torce o rabo. Durante a vida de trabalho, em situação de desemprego ou aperto financeiro, é certo que o sujeito deixará de contribuir. Seu “fundo” previdenciário estará diminuído. E, passados 40 anos, descobrirá que sua “aposentadoria” foi reduzida a pó. Isso se o fundo de previdência privada não tiver falido até lá. Lembra do fundo de previdência da Varig? As contribuições de décadas simplesmente desapareceram. E os contribuintes, hoje, estão na miséria e envelhecidos.

Talvez a questão da capitalização seja a face mais perversa do projeto. Significa que o governo está abrindo mão da previdência social. Quer privatizá-la. Em outras palavras, a riqueza gerada pelo país não mais contribuirá para a previdência. E as receitas da previdência social cairão radicalmente.
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Veja que não falei dos servidores públicos. Para eles (que desde 2003 contribuem para fundo de previdência), as alíquotas começarão em 7,5%, podendo chegar a 22%, de acordo com a faixa salarial. Com 25 anos, receberão 60% do valor do benefício. Para alcançar 100%, terão de contribuir por 40 anos.
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A proposta retira a previdência da Constituição. Algo muito perigoso. As futuras alterações serão feitas por lei complementar, e não mais por PEC (Proposta de Emenda à Constituição). Será muito fácil para o governo alterar as regras a qualquer momento. Isso significa insegurança e nenhuma garantia de que as regras serão permanentes. Por isso, caro leitor, se você acha que há problemas na previdência (e eles realmente existem), acredite, com a reforma eles serão muito maiores no futuro. Se tivermos previdência no futuro.

Ecologia em pauta

Em uma entrevista, alguns anos atrás, José Saramago contou que seu pai, muito doente, recebeu a notícia de que seria levado ao hospital (curiosamente, seus pais se chamavam José e Maria). O pai então foi até o pomar que cultivava nos fundos da casa, abraçou demoradamente cada uma de suas árvores em despedida, e foi embora. Morreuno hospital. 

Essa história, singela e emocionante, mostra que algumas pessoas desenvolvem uma especial relação com a natureza. Os indígenas, por exemplo, têm esse espírito que os vincula ao planeta. Se sentem integrados, se sentem parte da natureza, e não elementos estranhos à ela. Por isso mesmo eles são os grandes “cuidadores” da natureza. Há milhares de anos eles cultivam a terra e cuidam do meio ambiente. No futuro, quando tudo estiver devastado, os brancos pedirão ajuda a eles.

— Cacique Onça Esperta, o que fazemos com esse deserto?

— Vendam a areia!

Esta será a resposta que ouviremos no futuro se a devastação continuar no ritmo atual.
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Esta semana uma nova lei foi sancionada no Estado de Washington (EUA). Ela autoriza o uso de corpos humanos para a fertilização de solos. Você ficou chocado? Pois é verdade. 

Segundo a empresa responsável, a decomposição de corpos em cemitério, no sepultamento tradicional ou na cremação, é altamente poluente, pois joga na atmosfera milhões de toneladas de dióxido de carbono. Pela nova técnica, o corpo do que partiu desta para melhor é colocado numa câmara de compostagem, junto com outros materiais orgânicos que aceleram a decomposição, gerando adubo. Foram citados casos de grupos indígenas na Índia, que sepultam o morto e, no local, plantam uma árvore que será alimentada por ele. A partir de 2020, lá em Washington, os mortos poderão ser enterrados, cremados ou levados à compostagem.

Pois bem. A questão fundamental é que a lei entra em choque com valores morais e éticos que sempre cultivamos. Um túmulo é parte da nossa memória. Culturalmente, um morto continua fazendo parte da nossa história para sempre. Será que a nova técnica não estará reduzindo o sentido que damos à vida? A pergunta é mesmo muito interessante. Você toparia?
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Falando em ecologia, é curioso como os biodigestores desapareceram das conversas aqui na região noroeste. Alguns anos atrás, eles eram a promessa de energia limpa para muitos agricultores. O que houve? Não sei.

Falo disso porque a cidade de Wildpoldsried, no sul da Alemanha, está rindo à toa. Quinze anos atrás os moradores decidiram aproveitar o vento e os excrementos de suas vacas para gerar energia. A cidade estava empobrecida e encolhendo porque os jovens se mudavam para os grandes centros. Os moradores e a prefeitura descobriram que estavam gastando boa parte da sua renda com energia. A partir de então tudo mudou.

Hoje a cidade produz muita energia excedente, que é vendida. Alguns agricultores têm 80% de sua renda proveniente da venda para as distribuidoras. Uma combinação de biodigestores (o cocô de suas queridas vaquinhas) com energia eólica e solar. Até escolas e creches vendem energia. Segundo informações do jornal El País, no ano passado a cidade arrecadou mais de 22 milhões de reais só com a venda de energia. Não está na hora de voltarmos a falar dos nossos biodigestores?

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