Coisas da cidade

População reclama dos passeios da cidade. Não pela padronização que vem ocorrendo de forma gradativa e que é apreciada por todos. A reclamação é contra o "espessamento" dos passeios, ou seja, sua altura. Os proprietários padronizam colocando uma nova camada sobre a antiga, o que resulta no meio-fio mais alto.

Já há poucos quarteirões onde é possível estacionar em oblíquo sem ferir o para-choque do automóvel. Em alguns locais, mesmo estacionando em paralelo, o caroneiro não consegue abrir a porta do veículo.

É assunto para ser bem debatido também pelos vereadores. Não estaria na hora de normatizar a altura do meio-fio?

***

Ensino superior em alta na cidade e região. O leque de opções vem aumentando.

O campus local da UNIJUÍ, por exemplo, está oferecendo um bom número de cursos no seu vestibular de verão. Só na área das engenharias agora são cinco cursos à disposição dos estudantes: Engenharia Civil, Engenharia de Produção, Engenharia de Software, Engenharia Elétrica e Engenharia Mecânica.

Este campo do conhecimento superior, na área técnica, era uma eterna carência regional. Não há dúvida de que tal carência está sendo definitivamente sepultada, com gratos benefícios à nossa economia.

***

O trevo "do porco", como ficou conhecido por todos, no entroncamento que leva a Santo Cristo, receberá barreiras (aquelas peças alaranjadas) para ordenar no trânsito no local onde inúmeros acidentes já aconteceram.

Isso é bom. O trevo que leva a Tuparendi (na rodovia que passa nos fundos do Parque de Exposições) já recebeu nova sinalização e o trânsito melhorou.

***

Santa Rosa ratificou o que já existia. Para o legislativo a cidade preferiu manter o que já tinha. Continuará tendo bons interlocutores no Osmar Terra, no Elvino Bohn Gass, no Jeferson Fernandes e no Classmann.

***

O clima eleitoral na cidade não foi muito diferente do resto do país. Podemos resumir esse clima na seguinte palavra: medo. Vivemos numa sociedade com medo. Temos medo do futuro, do que acontecerá com os filhos, do que encontramos na rua, do que será feito do Brasil e assim por diante.

Pois lembrei de um amigo de tempos atrás. Ele sofria de um tumor no estômago. Para suportar as dores ele bebia álcool. Enquanto estava sob efeito do álcool ele conseguia esquecer a dor.

É mais ou menos isso que estamos fazendo ao namorar com o fascismo. Queremos espantar o nosso medo cultivando o medo. Simpatizamos com a violência, pois acreditamos que ela acabará com a violência.

Queremos uma vida familiar saudável e estamos abrindo as portas para uma república pentecostal, algo como um talibã tupiniquim.

Infelizmente, poucos estão entendendo o que está acontecendo por detrás das campanhas eleitorais. Estamos bebendo cachaça para esquecer o tumor do estômago.

Palavras do momento

A palavra "sororidade" está na moda, e vem da palavra latina "sóror", que significa "irmã". Sororidade, pois, representa a solidariedade entre as mulheres, um sentimento de apoio e compreensão mútua, até para que as próprias mulheres não reproduzam os preconceitos existentes. O mundo, Brasil incluso, vive uma onda de feminicídio (outra palavra em voga), com um crescente número de mulheres assassinadas. Sororidade passou a ser uma forma de irmandade feminina em defesa da dignidade e do respeito.

É o entendimento de que as mulheres podem ser mais fortes se estiverem unidas, em busca do espaço social que lhes pertence (e que sempre lhes é negado).

***

"Misoginia" é outra palavra em voga. Ela significa desprezo pelas mulheres, algo que podemos ver no cotidiano brasileiro, sempre machista.

O que é mais espantoso nisso é que vejo mulheres defendendo ideias machistas, efeito ideológico da nossa longa cultura patriarcal. Sabemos que elas são vítimas, diariamente, de agressões físicas e psicológicas, mutilações, abusos sexuais, perseguições, entre outras violências. Tudo pelo simples fato de serem mulheres!

O sexismo alimenta a ideia de desvalorização e preconceito. Muitas delas, pelo que estou observando, internalizaram tanto isso que consideram natural sua posição social inferior. É assunto para um estudo social e psicológico profundo.

***

"Equidade" é outra palavra que vem sendo usada com frequência. Lembra coisas como igualdade, simetria, retidão, imparcialidade. Agir com equidade é algo muito difícil, pois normalmente nos comportamos de forma injusta, especialmente quando comparamos um ser humano com outro. Mais uma vez a vítima tem sido a mulher, inclusive no mercado de trabalho. No mundo do Direito, equidade significa aplicar a lei com critérios de igualdade e justiça, o que também é difícil.

Para gente estúpida, por exemplo, mulher merece receber menos pelo seu trabalho. Ouço isto todos os dias!

***

Você deve estar com uma pergunta na cabeça. Por quê palavras como "sororidade", "feminicídio", "misoginia" e "equidade" estão na moda neste momento? Estão na moda porque estamos vendo desvios morais acontecerem de forma quase natural, e obviamente não pode ser assim.

Preciso lembrar que elas não estão em voga apenas no Brasil, um país historicamente machista. Elas estão sendo discutidas também em muitos países do mundo, onde vem ocorrendo uma onda conservadora na vida social e na política, que assume as características do fascismo que sangrou a Europa pouco tempo atrás. No Brasil essa onda vem se manifestando de forma particularmente intensa, o que mostra que o brasileiro não tem grande afeição pela democracia.

Tempos atrás, as pessoas sentiam vergonha em assumir sua posição sexista. Atualmente alguns se orgulham disso e se manifestam publicamente. Quando alguém manifesta suas ideias escrotas dessa forma, significa que se sente confortável, tem apoio entre amigos e na comunidade onde vive. Se perdeu a vergonha, é porque se sente fortalecido, acobertado por uma estranha cumplicidade.

Não se trata apenas daquele candidato bizarro que está aí ou de um vizinho engraçadinho. Trata-se de uma sociedade doente, que precisa de urgente terapia!

 

Os farrapos e nós

A Revolução Farroupilha é tida como a mais longa revolta da história brasileira. Durou dez anos. Mas não foi a única, é importante dizer. Outras revoltas aconteceram no século em que o Brasil assumia seus contornos como nação. Na verdade, ainda éramos, na época, uma colônia em busca da sua própria identidade. No período tivemos importantes revoltas no Maranhão, no Pará e na Bahia.
Em 1821 o governo central resolveu taxar os produtos gaúchos, como charque, erva-mate, couro, graxa etc. Além disso, taxou a importação do sal, um produto indispensável para a nossa produção do charque (e para fazer um churrasco, é claro). Estava criado o clima para a revolta que até hoje estudamos, liderada por estancieiros e charqueadores, e que arrastou também para a guerra os gaúchos mais pobres. Estes não receberam qualquer dividendo da revolta até os dias de hoje.
***
Aqui na região noroeste do RS temos poucos resquícios da revolta farroupilha. Na verdade, esta nossa região ficou fora do conflito. As movimentações de tropas envolveram basicamente a região sul e o litoral. Por aqui, a colonização propriamente dita começaria bem mais tarde, como sabemos. Lá por volta de 1890. Por isso, falar de revolução farroupilha aqui no noroeste é tecer elogios a um movimento que, na prática, pouco tem a ver com a história local.
Mas quem aprecia a história gaúcha deve fazer um passeio por cidades como Piratini, Rio Grande e Pelotas. Além, é claro, da capital gaúcha. Nelas encontramos os registros históricos e a presença ("viva", digamos) de edificações da época, que lembram uma fase áurea da nossa economia baseada no gado.
Pois assim como aconteceu na Argentina, também a economia do couro e do charque no Rio Grande do Sul teve um fim. Mas isso já é outra conversa.
***
Diferente do que ocorreu com as outras revoltas, a Revolução Farroupilha acabou mediante um acordo. Nas demais, o fim aconteceu com massacres que envergonham a nossa memória, embora por aqui tenhamos o triste episódio dos Lanceiros Negros, também vergonhoso.
O chamado "Tratado de Paz de Ponche Verde" marcou o fim da guerra, estabelecendo a anistia aos rebeldes, o direito de escolha do presidente da província, o perdão das dívidas dos revoltosos, alforria aos escravos que lutaram e a taxação do charque platino.
Um tema pouco comentado pelos historiadores é que, por detrás da revolução, havia um permanente temor de invasão do Rio Grande por parte forças espanholas e platinas. Os desentendimentos, neste caso, vinham desde o tempo do Tratado de Tordesilhas, numa região do continente sempre marcada por disputadas de territórios, incluindo aí a notável história das Missões Jesuíticas. Portanto, temer a invasão era algo natural, o que não era desejado nem pelos revoltosos, nem pelo governo central.
Aliás, precisamos lembrar que, enquanto os gaúchos se revoltavam, também os uruguaios se revoltavam contra o Brasil. A independência do Uruguai aconteceu em 1825, durante a revolução farroupilha. Até então a Província Cisplatina pertencia ao Brasil. A história desse entrelaçamento histórico que hoje forma a proximidade geográfica Brasil-Argentina-Uruguai é mesmo riquíssima e merece ser melhor estudada.

1/78Página seguinte →233 registros