Chacrinha e Teixeirinha

Esta é uma história verdadeira, mas pouca gente a conhece. Envolve figuras inusitadas, como o cantor Teixeirinha e o apresentador Chacrinha. Ninguém lembra da relação que existiu entre eles. Pois o fato aconteceu num tempo em que o Brasil era quase rural. A comunicação instantânea era apenas pelo rádio. A TV estava surgindo. O Chacrinha, que ainda não era conhecido como o “Velho Guerreiro”, apresentava um programa de rádio de enorme sucesso, já com audiência em todo o país (por ondas curtas, lembra disso?). Teixeirinha ainda era um cantor praticamente desconhecido.

Pois Teixeirinha foi ao famoso programa de rádio e cantou “Coração de Luto”, música na qual falava da mãe que morreu num incêndio. A música (ou melhor, a letra da música) foi um choque para os ouvintes.

O auditório da Rádio Clube de Niterói, com centenas de pessoas assistindo ao programa, desandou em prantos. As pessoas que ouviam a rádio em todo o Brasil também choravam. Foi uma comoção. Chacrinha, com sua verve humorística, jogou-se ao chão, simulando um enfarto. Os funcionários da rádio entraram em pânico e chamaram uma ambulância que levou o apresentador ao hospital. A polícia compareceu. Uma multidão se reuniu em frente à rádio para acompanhar os fatos. As pessoas rezavam pela saúde do Chacrinha. Naquela noite, o Brasil inteiro viveu momentos de expectativa e apreensão. 

O resultado foi o seguinte. Chacrinha respondeu a um inquérito policial por perturbar a ordem. E o Teixeirinha transformou-se, subitamente, numa celebridade nacional. Ambos curtiram a fama durante muito anos depois daquele fato.

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Além de apresentador irreverente, Chacrinha também foi compositor de inúmeras marchinhas de carnaval. Entre elas, as famosas “Maria Sapatão” e “Bota a Camisinha”, lembradas até hoje. Atualíssimas, diga-se de passagem.

Naquele Brasil mais singelo e ingênuo, Chacrinha acabou sendo investigado pela censura da ditadura porque falava palavrões e de temas relacionados ao sexo. Para o moralismo da época, Chacrinha era muito ousado e irreverente. Aliás, com essa onda de moralismo que anda por aí atualmente, parece que estamos retornando àquele tempo em que a minissaia causava escândalo e o mundo parecia estar acabando. O fato é que o mundo não acabou e as famílias sobreviveram. Era só pânico moralista, mesmo. Como também é hoje. 

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Quanto ao nosso querido Teixeirinha — que vi cantando em frente à loja Ferramis, aqui na cidade —, morreu aos 58 anos de idade. Existe uma polêmica que sempre ressurge. Seria ele o grande vendedor de discos da história da música brasileira? Na verdade, é uma questão sem resposta. O importante é lembrar que ele compôs e gravou cerca de 1.200 músicas e vendeu entre 100 e 150 milhões de discos. A polêmica vai continuar pois não há números exatos. Somente a dupla Tonico e Tinoco e o rei Roberto Carlos venderam mais discos, segundo alguns estudiosos do assunto. Viveu na era fabulosa do disco de vinil, quando as gravadoras eram empresas poderosas e a pirataria não existia. O sucesso era medido pela quantidade de discos vendidos. Foi o primeiro cantor gaúcho que, de fato, ficou famoso em toda a América Latina. 

Já a música “Coração de Luto” tem fundo de verdade. Aos sete anos de idade Teixeirinha perdeu o pai, vitimado por um enfarto, e aos nove anos perdeu a mãe num incêndio. A tragédia, que marcou a vida dele e fez o Brasil chorar, também foi o grande trampolim de sua carreira.

Sem livros, não dá

Fato marcante, na semana que passou, foi a participação de duas meninas na cúpula da ONU sobre o clima. Uma delas é brasileira.

A mais impactante foi Greta Thunberg, que falou com sotaque sueco e uma forma estranha de gesticular. Ela é autista. Greta passou um “pito” nos principais líderes do mundo e deixou uma frase que deve ser tornar um símbolo: “Como vocês ousam?” (How dare you?). Resumindo, ela disse que líderes políticos e econômicos não têm o direito de destruir o único planeta que temos, e que continuará sendo a casa das futuras gerações. É verdade. Estamos deixando uma casa tóxica e irrespirável, com a simples explicação de que temos que “produzir riqueza”. Um argumento que já está morto, é claro, pois estamos matando a vaca, como se dizia antigamente. Outra participação interessante foi de Catarina Lorenzo, uma jovem surfista de Salvador, de 12 anos, que subiu ao palco da UNICEF para dizer que os jovens e crianças não vão desistir desta luta.

Pela primeira vez, vergonhosamente, temos de depositar esperança em crianças e adolescentes. Elas estão vendo claramente o perigo. Elas, que deveriam estar na escola, confiando nas ações dos adultos. No entanto, entre nós, adultos, há até gente sem cérebro que nega a mudança climática. As crianças se tornaram nossa esperança! Que vergonha para nós!

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Estamos vivendo a Feira do Livro e isso lembra a relação interessante (muitas vezes apaixonada) que temos com os livros. Certa feita um amigo me dizia: “Há três coisas que não podemos emprestar aos outros — escova de dentes, namorada e livros”. Eu respondi que minha única experiência de empréstimo envolvia os livros. Como é difícil recebê-los de volta! Tudo terminou em risos, é claro. Pois lembrei da historinha do sujeito que foi visitar um amigo e encontrou dezenas de livros jogados pela casa. Aquilo deixou o cara intrigado: 

— Que maravilha! Quantos livros! Mas por que você não
os organiza?
— É porque até agora não encontrei alguém que me emprestasse uma prateleira...

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Eu e o Aquiles Giovelli observávamos o momento da Feira do Livro na última terça-feira, dia da abertura, e comentávamos: “Eventos desta natureza fazem aflorar talentos. Assim como o Musicanto despertou inúmeros músicos em toda a nossa região”. 

É uma grande verdade. No caso dos livros, “produzir” leitores significa também despertar excelentes médicos, advogados, engenheiros, técnicos de todas as áreas e até escritores. É o que podemos chamar de ambientação, ou seja, aquelas condições psicológicas e sociais que revelam as pessoas dedicadas e talentosas. Um meio social estimulante é capaz
disto. E, confesso, eu desconheço bons profissionais que não sejam, ao mesmo tempo, bons leitores.

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A Feira de Santa Rosa, além de divertida, nos dá a oportunidade de entrar em contato com livros e amigos. É para isso que amanhã, sábado, às 10h30min, estaremos lá com o lançamento do livro de crônicas (em grande parte publicadas no Noroeste nas últimas duas décadas). Você, caro leitor, está convidado. Se não quiser levar o livro para casa, apareça para o chimarrão. De qualquer forma, será uma alegria encontrá-lo.

Coisas da cidade

Fiquei três semanas pensando no projeto, recentemente divulgado pela Prefeitura, que envolve a construção de uma parada (ou seria abrigo?) no centro da pista da Rua Cristóvão Colombo. Fiquei imaginando aquela parte da cidade com uma enorme construção de ferro, com elevação de 35 centímetros da pista, e pessoas tentando chegar à Praça da Bandeira e outras tentando chegar à Avenida América. No meio disso, duas pistas de ônibus (cobertas, no centro) e duas pistas de automóveis (nas laterais). E no “paradão”, diversos painéis de publicidade

Por que fiquei todo esse tempo pensando no assunto? Acho que precisava “visualizar” (mentalmente, digamos) aquela parte da cidade com tal obra de engenharia. Confesso que fiquei tomado de pânico, pois é o tipo de obra que, uma vez feita, ninguém mais derruba.

Posso estar imaginando coisas, mas a primeira impressão é que teremos um monstrengo, tornando a cidade mais feia e mais confusa. Lembro que “monstrengo”, em bom português, significa algo disforme, fora do normal, que foge muito do padrão de beleza ou normalidade. A Cristóvão Colombo, que hoje oferece bom fluxo, vai acabar. É o que me diz meu sexto sentido. E normalmente ele não costuma me enganar...

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E por falar em monstrengo, quando surgirá uma nova liderança na cidade, com alguma dose de coragem, para buscar alternativas para o nosso camelódromo? Uma edificação disforme e feia que simplesmente acabou com a Praça 10 de Agosto (acabou também com os negócios dos vendedores do local). 

É mais um monstrengo que visualizamos diariamente, há anos, no centro da cidade. Aliás, a 10 de Agosto está abandonada há tempos. Um dos pontos centrais da cidade é, justamente, o mais feio.

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O respeitoso convívio entre ciclistas e condutores de automóveis por estas bandas merece aplausos. Lentamente, o convívio melhorou muito. Mas há quem não aceite a presença de ciclistas, por exemplo, nas rodovias. Já ouvi alguém dizendo que isso é proibido. Não é verdade. 

A legislação diz que a circulação de bicicletas deve ocorrer em ciclovia, ciclofaixa ou acostamento. Quando não for possível, a circulação deve ocorrer nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação, “com preferência sobre os veículos automotores”. Ou seja, quando não há acostamento, a preferência é dos ciclistas. Além disso, os motoristas, no momento de ultrapassagem, devem observar a distância mínima de 1,5 metros. Se não houver acostamento, é como se o carro estivesse ultrapassando uma moto ou outro veículo. É fácil entender.

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Nesta terça-feira, dia 1º, ocorre a abertura da Feira do Livro, que vai até o próximo final de semana. É sempre um bom lugar para encontrar pessoas, tomar um chimarrão e, obviamente, levar alguns livros para casa.

Haverá livros também de autores locais, como deste que vos fala. No dia 5, sábado, às 10:30 horas, tem sessão de autógrafos do livro “Histórias nada singulares”, uma coletânea de crônicas bem humoradas e divertidas. Pelo menos, eu me esforcei para que assim fosse. A maioria delas, aliás, foi publicada aqui no Noroeste, ao longo destes vinte e poucos anos que aqui compareço.

Espero, fazendo um trocadilho, que você compareça por lá...

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