Que Natal entrará em tua casa?

Passei mais de meia hora escrevendo e apa-gando as linhas de abertura desta crônica, a refazer o que deveria ser simples: uma crônica natalina.

Até eu concluir que não é simples, não em 2019. É difícil propor um texto sobre o amor em ano de guerras verbais que danificaram amizades e famílias. É difícil pedir que diminuam a velocidade por um segundo, quando a maioria dos leitores abrirá este jornal somente no domingo de manhã porque o sábado será de correria no comércio. 

O ano foi de desamor entre os mais próximos por conta da política e da religião. O ano teve o peso de uma década (ou mais), de modo que, a esta hora, pedir leveza e paz é quase gritar no interior do Mosteiro. Os nossos afetos e amores nunca antes receberam tantas pedradas porque todos nós aprendemos a fazer estilingues e disparar argumentos.

No entanto, é Natal. O ano finda, as férias têm início, as famílias buscam um reencontro, e a vida pede uma placa de “stop”, mesmo que breve. É Natal no comércio, nos shows nas praças, nas apresentações escolares. É Natal nas vitrines. Mas, será que ele entrou nas casas?

É Natal, sei porque feliz eu percebo incontáveis ações sociais pipocarem nas entidades e grupos de amigos. Sinceramente, jamais antes vi em Santa Rosa tantos gestos solidários quanto agora. É como se todas as flores de um jardim abrissem a uma só vez.

Essa é a boa nova do Natal daqui. Muitos lares humildes terão ceias fartas e filhos de pobres receberão presentes. Quem sabe assim mais gente se aventure no bem, não no dar e doar, mas no fazer, ir às comunidades, partilhar de granas e afetos! Quem sabe o Natal possa durar mais que dois dias!

A pergunta que vos deixo é: Esse Natal, tão solidário e cheio de exemplos, entrará nos corações? Dar e doar nem sempre é afeto, nem sempre é amor. Às vezes vêm vestidos de culpa ou hipocrisia. Abra-se à reflexão e questione: Realmente é Natal em seu coração?

Assim você saberá que Natal entrará em tua casa a partir de hoje.

O inço e os venenos

O Sávio tem uma tese sobre os inços. Ele diz que são a força real da natureza e sempre vencerão. Talvez, amigo, mas antes precisarão vencer a surda guerra, à qual, todos fecham os olhos.

Dia desses falávamos sobre o encantamento que me proporcionou colher flores do campo para um buquê que ornamentasse a mesa. Eram espécies belas e cheirosas. Todas eram inço no potreiro. Todas venceram a guerra contra os agrotóxicos da vizinhança. A partir de então, passei a reparar mais nelas, essas miúdas espécies que estão à beira dos açudes, nos banhados que restam, nas beiras de estradas onde o veneno não alcança.

Vá me visitar se duvida do que escrevo. Olhe a lavoura de um vizinho que passou secante. Ao redor, as árvores estão queimadas até quatro ou cinco metros de altura. Dá pena ver. Adiante, no rumo da Vila Sete, um morador contou que entrou na justiça contra o lindeiro porque o secante afetou sua roça a 100 metros de distância. 

Clairto, vá comprar uma enxada para limpar as lavouras, então! É isso que dirá o produtor rural. É isso que dirá quem defende o uso de qualquer agrotóxico. O problema não está no uso em si, mas sim nas aplicações que burlam as frágeis leis que temos. O problema está nos venenos que vêm ilegais via Argentina e Paraguai e que estão escondidos longe dos galpões, em fossas construídas nos fundos de propriedades.

A nossa região chama a atenção de autoridades de saúde há anos, devido o alto índice de casos de câncer e nascimentos de bebês com más formações genéticas. Todos sabem que é por causa do veneno no ar, e na comida, claro.

Não adianta comprar orgânicos, você pesteia pelo vento que chega à tua janela. Nossas cidades são pequenas, estão todas rodeadas por lavouras (isso quando elas não estão no perímetro urbano), não há um só lugar livre do veneno que se alastra de quatro a oito quilômetros pelo ar. Você não está imune se vive num apartamento no centro de Santa Rosa. E se estiver, será atingido assim que colocar o pé na estrada. 

Aí é que está o cerne da questão. Os venenos são de responsabilidade de todos, e esse todos inclui autoridades sanitárias, polícias, prefeituras, Emater, sindicatos e as cooperativas de produção. Elas precisam, urgentemente, assumir seu papel de controle, fiscalização e conscientização para diminuir o uso. É preciso fazer alguma ação grande, conjunta, para que possamos purificar o ar que respiramos. Ou continuaremos assim, líderes mundiais em casos de câncer. 

Enquanto isso, comemore a indicação de políticos que vão facilitar o desmatamento, que irão inibir as multas ambientais e liberar os agrotóxicos mais pesados. Comemore o aumento da produtividade à custa de vidas. Mas, não reclame de Deus quando sua casa for visitada pelo anjo da morte que tem nas asas a caveira do tóxico. 

Aprendi com o Sávio, e com os inços. Aprendi que a beleza da vida não cessará mesmo diante dos muitos venenos que usamos. Aprendi que quando nós tivermos passado, quando nossos filhos herdarem uma terra de poucas espécies, o inço ainda estará lá, vencendo, resistindo, porque Deus fez o homem para que ele sujeitasse todas as coisas, não para que destruísse todas as coisas.

A falsa ideia de insegurança

Já durante a campanha política muita gente se valeu do  conceito de segurança para justificar voto em A ou B. 
           Queriam segurança!

Trazendo isso para o cenário local, ouvi poucas e boas nos últimos meses, mas, especialmente, nas últimas semanas, após quatro assassinatos que deixaram os santa-rosenses de cabelo em pé, em clima de filme de Hollyhood. Há os interessados no caos. Ou, na falsa ideia de caos. Empresas de segurança privada ganham com isso, imprensa ganha com isso, políticos lucram em bater no governo, etc e tal.

A verdade é que, quando nos referimos ao cenário de Santa Rosa e região, somente os mais jovens são capazes de dizer que a segurança piorou. Isso porque os mais jovens não conhecem a história local. Ou são alimentados por pessoas de mais idade que não viveram nesta cidade em décadas passadas.

A situação de Santa Rosa nunca esteve tão boa, tão pacífica, muito embora eu tenha consciência que o tráfico está rondando. Há pouco mais de 30 anos ninguém de fora entrava em certas vilas, havia temor em entrar à noite (e às vezes até de dia) na Agrícola, na Auxiliadora, na Pau Pega, na Planalto e outras. Isso somente mudou na década de 90, depois que assassinaram o caminhoneiro Ademar Pereira da Luz na Planalto.

Não foi apenas a força policial usada pelo prefeito Osmar Terra naquela operação faxina que surtiu efeito para mudar a realidade de violência. As comunidades eram violentíssimas porque eram extremamente pobres, sem água encanada, sem luz, sem estradas, sem nada. E pessoas sem esperança não têm nada a perder. Nem a ganhar.

O que mudou?

A violência se foi à medida que as periferias receberam escolas, postos de saúde, asfaltos, terrenos delimitados e casas populares. A violência migrou a partir da presença do poder público constituído para ouvir os anseios das comunidades.

É preciso que os arautos da nova política, e os mais jovens que reclamam da violência, compreendam que não há possibilidade de mudança se não houver avanço social. Pobreza produz violência.

De resto, a violência é tráfico. E tráfico não é coisa de pobre. Pobre é usado. Quem paga o tráfico é gente grande, ricos encastelados em mansões e carros de luxo, porque traficante pequeno não tem como investir milhões para comprar a droga no exterior e criar o mecanismo de distribuição.

Quem alimenta a boca de fumo é o rico. E mais, se fossem prender os usuários, teria muita gente graúda e importante de Santa Rosa chorando os seus filhos atrás das grades.

Todo o resto é demagogia semeada para obter vantagens em torno de pessoas incapazes de olhar além da primeira cortina de fumaça.