O inço e os venenos

O Sávio tem uma tese sobre os inços. Ele diz que são a força real da natureza e sempre vencerão. Talvez, amigo, mas antes precisarão vencer a surda guerra, à qual, todos fecham os olhos.

Dia desses falávamos sobre o encantamento que me proporcionou colher flores do campo para um buquê que ornamentasse a mesa. Eram espécies belas e cheirosas. Todas eram inço no potreiro. Todas venceram a guerra contra os agrotóxicos da vizinhança. A partir de então, passei a reparar mais nelas, essas miúdas espécies que estão à beira dos açudes, nos banhados que restam, nas beiras de estradas onde o veneno não alcança.

Vá me visitar se duvida do que escrevo. Olhe a lavoura de um vizinho que passou secante. Ao redor, as árvores estão queimadas até quatro ou cinco metros de altura. Dá pena ver. Adiante, no rumo da Vila Sete, um morador contou que entrou na justiça contra o lindeiro porque o secante afetou sua roça a 100 metros de distância. 

Clairto, vá comprar uma enxada para limpar as lavouras, então! É isso que dirá o produtor rural. É isso que dirá quem defende o uso de qualquer agrotóxico. O problema não está no uso em si, mas sim nas aplicações que burlam as frágeis leis que temos. O problema está nos venenos que vêm ilegais via Argentina e Paraguai e que estão escondidos longe dos galpões, em fossas construídas nos fundos de propriedades.

A nossa região chama a atenção de autoridades de saúde há anos, devido o alto índice de casos de câncer e nascimentos de bebês com más formações genéticas. Todos sabem que é por causa do veneno no ar, e na comida, claro.

Não adianta comprar orgânicos, você pesteia pelo vento que chega à tua janela. Nossas cidades são pequenas, estão todas rodeadas por lavouras (isso quando elas não estão no perímetro urbano), não há um só lugar livre do veneno que se alastra de quatro a oito quilômetros pelo ar. Você não está imune se vive num apartamento no centro de Santa Rosa. E se estiver, será atingido assim que colocar o pé na estrada. 

Aí é que está o cerne da questão. Os venenos são de responsabilidade de todos, e esse todos inclui autoridades sanitárias, polícias, prefeituras, Emater, sindicatos e as cooperativas de produção. Elas precisam, urgentemente, assumir seu papel de controle, fiscalização e conscientização para diminuir o uso. É preciso fazer alguma ação grande, conjunta, para que possamos purificar o ar que respiramos. Ou continuaremos assim, líderes mundiais em casos de câncer. 

Enquanto isso, comemore a indicação de políticos que vão facilitar o desmatamento, que irão inibir as multas ambientais e liberar os agrotóxicos mais pesados. Comemore o aumento da produtividade à custa de vidas. Mas, não reclame de Deus quando sua casa for visitada pelo anjo da morte que tem nas asas a caveira do tóxico. 

Aprendi com o Sávio, e com os inços. Aprendi que a beleza da vida não cessará mesmo diante dos muitos venenos que usamos. Aprendi que quando nós tivermos passado, quando nossos filhos herdarem uma terra de poucas espécies, o inço ainda estará lá, vencendo, resistindo, porque Deus fez o homem para que ele sujeitasse todas as coisas, não para que destruísse todas as coisas.