Promessas boas, ainda assim promessas

Sou a favor, claro, afinal sou povo, e este espera que haja avanços que se traduzam em melhores condições de vida.

Os mais alinhados à esquerda dirão que esta coluna é um afago que compensa o texto da semana passada. Não é, até porque não me preocupo com o que dizem ou pensam na esquina. Sou, antes de escritor, um leitor dos fatos, e eles se impõem.

A própria demissão do ministro Velez, no MEC, pedra cantada há semanas, é uma boa notícia. Ele e sua equipe eram retrocessos. Ainda é cedo para saber as ideias do novo indicado, mas pior que o colombiano não há de ser. Ademais, diz ele que pretende copiar Coreia e Japão, o que é bom. Esperança há, apesar de algumas falas bem ridículas no ano passado.

A promessa de o gás de cozinha baixar pela metade do preço em dois anos, feita pelo ministro Guedes, é para colocar no mural da própria cozinha (apesar de que será com nosso dinheiro, claro, porque o Temer deu um trilhão de reais em isenção às petrolíferas estrangeiras). E tem que levar em conta que o gás vem da Petrobras, que é estatal, então poderia praticar o preço que quisesse. Ah, só para lembrar: Quem dobrou o preço do gás e da gasolina foi o Temer.

A melhor notícia recente é o Auxílio Maternidade estendido para um ano às mulheres, conforme sinalizou o ministro Terra. Há muito escrevi sobre isso, sobre como é desumano ser mãe e voltar a trabalhar quatro meses depois. É uma das promessas que posso crer que saia do papel, porque quando depende do governo, as promessas do Terra, em geral, se cumprem. Mas, como isso é coisa de comunista, tenho lá minhas ressalvas, afinal, a chiadeira das empresas e do próprio governo vai ser grande.

Carteira de motorista com validade para 10 anos é outra nesta esteira de boas. É promessa (tem gente que já na semana passada achava que valia)! É um bom alento, mas poderia vir acompanhada de redução nos encargos para fazer a CNH. E de quebra deveria voltar atrás na ideia de aumentar de 20 para 40 pontos as multas antes de perder a carteira. Menos rigor gera mais infrações, e mais acidentes. 

Há promessa de ajuda para as prefeituras contratarem médicos por seis meses e ampliarem atendimentos nos postos, inclusive à noite. Ótimo, até porque os municípios estão no limite. Todavia é também um modo de assumir o furo deixado no programa Mais Médicos, que já tem 25% de vazio.

São boas notícias que vêm lançadas ao mar da internet justamente na semana em que duas pesquisas apontaram queda de prestígio do presidente e uma certa desesperança da população. Vêm para desnublar o céu ou até para tirar o peso do metal dos 80 disparos militares que mataram “por engano” um cidadão negro desarmado que passeava com a família na periferia do Rio de Janeiro.

Por isso, temo que tudo isso não passe de cortina de fumaça para fazer andar a reforma da Previdência, empacada desde que deram ordem para prender o Moreira Franco, sogro do Maia.

EM TEMPO: já que o governo gosta tanto de usar a internet, deveria expor ponto por ponto a Reforma da Previdência e deixar que a população decidisse pelas redes sociais. 

A direita venceu...

A frase não é “A direita venceu as eleições”. O raciocínio que proponho é mais amplo quando não complementei o título.
A direita venceu no campo mais fértil, venceu na cabeça das pessoas. Por isso, permanecerá por um longo tempo entre nós.
Há bem pouco tempo, para enganar os leigos, os sábios passaram a dizer que esse conceito de “direita e esquerda” não existia mais. Era parte da manipulação para voltar a conquistar simpatia popular. Deu certo, porque agora tudo que está errado é culpa da esquerda!
Escrever que a direita venceu as eleições é chover no molhado. É preciso olhar além desse simplismo. O ponto mais intrigante desse contexto é que a direita venceu na mente das pessoas, e o fez porque se instalou um pensamento coletivo 8 ou 80, que está alinhado ao moralismo puritanista punitivo.
Leio, volta e meia, postagens de trabalhadores se posicionando com ferocidade contra os seus sindicatos, aos quais deveriam estar filiados. Têm direito de estarem desiludidos com suas entidades, mas crer que será melhor sem elas é acreditar que o suicídio leva ao céu.
Leio postagens de mulheres contra as lutas do movimento feminista, o que é como desmerecer todas as conquistas advindas dessa árdua batalha de séculos contra o machismo e a escuridão.   
Leio postagens de pessoas pobres contra as cotas nas universidades. Isso dói. Mas quando pedem que se mandem embora os médicos cubanos percebo que a doença da cegueira realmente afetou profundamente milhões de desfavorecidos. Doente sem médico rezando por milagre.
De um momento a outro os pobres passaram a ver como inimigo o pensamento socialista – que prima por um pensamento de avanços sociais para melhorar a vida dos que têm menos.
Muitos jovens estão “mijando” na esquerda, na liberdade de imprensa, no pensamento social. Estão indo contra o viés libertário que é típico da juventude. Bom mesmo é ver séries na TV paga pelos pais.
A direita venceu quando se armar até os dentes é a solução para a segurança. Quando as pessoas passam a dizer que não houve golpe militar e a ditadura não fez nada de errado, sinto que falhamos. É tão tosco quanto afirmar que o nazismo foi um movimento de esquerda.
Quando a reforma da Previdência avança contra os pobres e estes se calam é porque a direita venceu o duelo psicológico.  
Sim, meu discurso sempre foi de esquerda, não a radical do PSTU, mas da veia socialista do Beto Albuquerque. Não, não estou chateado porque a direita ganhou as eleições, afinal, é a partir da alternância de poder que se constroem avanços. É a vez de ela mostrar suas ideias.  
Todavia, estou preocupado, por estarmos encalacrando em nós (sociedade) pensamentos que ultrapassam a própria direita, que são da extrema direita, de viés retrógrado, preconceituoso e do extremo individualismo.
Cavando o poço mais fundo, nesse caso, não se achará água. Mais fundo, aqui, é mais rocha bruta. 

A bagunça no MEC

O Governo Federal como um todo é uma bagunça, mas alguns setores estão mais afetados, como a Educação.

Essa bagunça atual comprova que não havia um plano concreto de como governar o país e quais propostas defender. Mesmo assim, nesses cinco meses depois da eleição já deveríamos ter algo mais engrenado. O Governo, como um todo, o presidente e seus ministros inclusive, faz declarações que caem mal ou estão equivocadas e logo em seguida volta atrás. Virou marca registrada o diz-desdiz.

A Educação, porém, é uma das áreas cruciais a um país que pretende ser desenvolvido. Carece que ela tenha planejamento de longo prazo, continuidade nas ações e especialistas na linha de comando. Começa já aí, pois o Velez não é especialista. Há em Santa Rosa pelo menos uma dúzia de educadores mais qualificados que ele. Somente cegos não veem isso.  

Todavia, ainda assim, enquanto ministro sem total preparo, poderia se cercar de especialistas e construir um Plano Educacional com essas maiúsculas que o setor pede. Mas não! Ele prefere pequenas confusões e trazer ao seu entorno quem tem pouco a dar. Com todo respeito a quem é extremista da religião ou do Exército, mas o caminho da Educação passa pela Educação.

As crises envolvendo o Velez são diárias. Basta abrir um jornal do Rio, São Paulo ou Brasília para ver. Nem é preciso lembrar aquela ideia de filmar os alunos e gravar a execução do Hino Nacional. As mudanças na pessoa “número dois” do Ministério, inclusive uma que nem assumiu, são a comprovação de total despreparo e tentativas às cegas de encontrar um rumo.  

Nesta semana mais duas pixotadas. Primeiro “avalia não-avalia” a fase de alfabetização e, logo depois, a queda do diretor do INEP – que é o órgão que conduz o ENEM. Ah, para completar, devem anunciar um militar para comandar essa área vital da Educação.  

Tudo isso somente demonstra que a educação não é prioridade no Governo. Os direitistas irão dizer que também não foi nos governos petistas. Isso se desmente com a criação dos Institutos Federais e Universidades Federais como a de Cerro Largo. O Velez e sua equipe dão a entender que a educação pública logo vai ser golpeada em prol da educação privada ou da militarista.

Ah, quem comemorou o corte de 21 mil cargos de confiança pelo Governo Federal há duas semanas é obrigado a ler as matérias do bom jornalismo feito depois disso. A imprensa séria mostrou que dos 21 mil cargos extintos, 13 mil são em universidades federais, são ganhos extras de professores que atuavam na pesquisa e condução de projetos. Educação cortada na carne! Esse é o modo de levar ao extremo o discurso de que a culpa é dos professores.

As ações são para atingir professores, mas atingem a Educação. Nesse passo, acordaremos amanhã na década de 80.

O Estado também não está muito diferente na Educação. Primeiro anunciou que as coordenadorias regionais seriam agrupadas, mediante várias extinções. Depois sufoca. Vá às escolas, converse com as direções para que te digam o quanto está complicado ajustar o calendário com as posturas atuais.  

Quem comanda a Educação deveria aprender primeiro que há diferença entre palavras parecidas. Educação carece é diferente de educação carente!

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