A vitória do ódio

Quero utilizar o futebol, um evento isolado, para ilustrar o Brasil atual, este de dias tão carregados que se parecem de vendavais constantes. 

O clube de futebol Vasco sofreu ontem com várias ofensas proferidas por parcela de seus próprios torcedores. Eles não aceitaram ver os atletas usando uma camisa especial no jogo de quarta-feira à noite. O uniforme trazia uma bandeira/escudo, bem pequena, do Flamengo, com o dizer “...juntos”, em mensagem de apoio ao rival após a tragédia envolvendo os 10 mortos no incêndio da semana passada.

O gesto foi maravilhoso, grande, algo que eu aplaudiria se o clube para o qual torço fizesse com relação ao rival. Não é o mesmo que esquecer a rivalidade e as provocações, é uma consciência de nobreza. Mas, os torcedores, trogloditas, não compreenderam desta forma e usaram sua típica ignorância, a tal que tem tornado o Brasil um país notável, para tecer críticas e mais críticas a algo que deveria servir de lição nacional.

O exemplo de tais vascaínos somente não é mais lamentável que aquele de um internauta que fez piada com urubus, negros e churrasquinho em referência aos mortos na tragédia. Este, porém, igualmente é do mesmo Brasil que cultua a ignorância como se ela fosse elogiável.

Sinceramente, não é um caminho a seguir. Uso o futebol como ilustração porque estamos assim, enquanto país, entre ódios extremados, onde se ama ou odeia este ou aquele porque ele é socialista, porque ele é de esquerda ou porque ele é apoiador do Bolsonaro e defende posturas de direita.
Nessa panela de pressão pouco importa os fatos, pois importa a paixão cega que se nutre pelo adversário e que, agora – dadas as circunstâncias – torna ambos os lados inimigos. Assim começam as revoluções que destroem nações.

Esse país de ódios extremados não é um país em construção. É um país em implosão. O Brasil que todos deveriam querer construir é o do exemplo do Vasco, esse de estampar o escudo do Flamengo em sua camisa, mesmo que por um jogo apenas (e olha que não tenho nenhuma paixão por qualquer um dos clubes).

O futebol já nos orgulhou no mundo todo, hoje nos envergonha dada a violência das torcidas organizadas e das quadrilhas que saqueiam as instituições. Tiraram a beleza para ensinar o ódio. Assim se encaminha o cenário político.

O ódio é a nossa derrota. 

A honestidade tem graça

Honestidade é coisa séria. No Brasil, porém, a honestidade é engraçada, pelo menos sob o ponto de vista que as pessoas olham para si mesmas e os exemplos que as rodeiam.

O Brasil é engraçado por si só, mas alguns se sobressaem. É o caso do deputado que sugere uma lei para eliminar todos os tipos de anticoncepcionais porque são abortivos (pelamordedeus). Da mesma linha deste é o outro que fez a esposa sentar em seu colo durante a posse (e pior é a mulher se sujeitar a tanto!). Também é a moralista decotada de Santa Catarina. Tudo isso é para chacota em qualquer país sério, mas aqui é coisa para não se rir.

A própria ignorância de alguns seria engraçada, não fosse ela usada pelos espertos para ludibriar a massa. Via de regra, basta ler os comentários em torno da nova condenação do Lula – que de inocente não tem nada. É uma das bizarrices nacionais, porque os quadrilheiros do PP, MDB, PSDB e outros que participaram do esquema que assaltou o Brasil estão soltos e dando ordens no topo do poder. A honestidade do Lula é engraçada, como a desses partidos todos que agora lavam as mãos.

O Flavinho ter ligação com a milícia (que é uma organização criminosa) certamente é, para ele, algo lícito. Ele não vê nada errado em explorar skygato, gás e água nas favelas, oferecer proteção à margem da lei – ou ficar com a maior parcela dos salários dos servidores. A honestidade dele é engraçada. Os eleitores santa-rosenses o defendem aos berros, dizem que é armação. Não é não, e isso não tem graça. 

Vou ilustrar com casos honestos!

Honesto um: pegou empréstimos de R$ 180 a 250 mil em três bancos, quase R$ 700 mil. Tão logo fez o brique, fechou o estabelecimento, comprou um carrão e foi curtir a vida, na boa. Nunca mais vai pagar. Pobre é que paga as contas.

Honesto dois: depositou uma pequena fortuna na conta da mãe, uma aposentada com parcos ganhos, como forma de ludibriar a Receita Federal. O esquema foi descoberto. A honesta ideia era não pagar imposto. 

Honesto três: sonegou anos de impostos, até a Receita bater forte. Multa milionária. Pagará, parcelado, em suaves prestações a perder de vista. Ganhará milhares de vezes mais com o dinheiro investido em outros negócios. Pagará honestamente rindo.

São ilustrações apenas, que podem muito bem ser verdade. Atos ilegais de pessoas honestas. Poderia citar “trocentos” outros exemplos, de graúdos a miúdos. É irritante ver as pessoas arrotarem contra as ladroeiras dos políticos, mas na primeira oportunidade fazerem exatamente o mesmo.

Essa honestidade do brasileiro é engraçada, sim, porque ele enche a boca para falar do alheio, mas cospe farelos em toda a sua emporcalhada sala.

P.S: Parabéns vereadora Sonia Conti pela autoria da lei que abre um pouco de espaço aos escritores locais.

Há eternidades que são efêmeras

Há juras de amor eterno que não duram uma semana ou não superam a primeira crise, ao passo que outros amores não precisam de juras.

Política, amigos e namoro sofrem dessa mesma angústia, de saber se a promessa de eternidade resistirá quando o vento soprar com intensidade. Na política, em geral, os amores morrem nas traições como MDB x PT. Nos amigos, a eternidade perece na inveja ou no distanciamento natural que a vida traz. Ah, o namoro, este sim, reúne bem mais fracassos que sucessos. 

O começo do ano sempre vem recheado de boas notícias naquele entorno mais primoroso, no grupo dos ex-alunos que vencem adversidades. Nós que trabalhamos com a arte ou magistério, nessa nobre missão de transformar pessoas, festejamos conquistas como se fossem nossas. Eu tenho orgulho de saber que abracei inúmeras vezes jovens sonhadores como Larissa, Nicole, Samara, Jéssica, Patrick 1 e 2, Josafá – o garoto do choque, entre tantos outros que faltam linhas para citar.

Eles não são apenas ex-alunos, são amigos – espero – que estarão em minha linha do tempo a vida toda. Não a linha do Face, a linha existencial mesmo. Eles chegariam à vitória sem nós, com certeza, né mestres Maria Inez e Roque? Todos são vencedores, iriam galgar o topo de qualquer forma, mas saber que lhes demos um tanto mais de cultura e a oportunidade de sonhar alto, isso não tem preço.

Outros apenas moldamos para que se deem melhor em suas estradas, adicionamos afeto e temperos que jamais esquecerão. São alunos que nos mandam notícias, ou pedem permissão para acampar no potreiro da chácara. Nunca saberemos se são eternos, sabemos, porém, que fincaram em nós raízes.

Difícil falar de eternidade e amigos num país em que não se discutia política e, de repente, tudo vira política, tudo incita ódio. Família e amigos cozinham à simples menção de Bolsonaro, pró ou contra. Manter os afetos é exercício de profundo semear em dias assim.

As amizades estão machucadas em dias sombrios como esses em que a coerência deixou de existir e todas as poesias deram lugar à pólvora. Por isso eu continuo limpando meu Facebook, podando quem não compreende que a verdade tem peso de ouro. 

As amizades que perduram são aquelas em que os ombros se parecem, como “junta” de bois ou cavalos aparelhados à mesma carroça, porque é necessário dividir o peso sem sobrecarregar o outro.

P:S

Há juras de amor que são testadas ao extremo até que se provem eternas ou efêmeras, como essa do PP pelo (P)MDB em Santa Rosa, ou talvez seja o oposto – muito provavelmente. Os que são “mais raiz” ainda não se convenceram que os nós dessa costura são de bons fios.

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