• segunda-feira, 23 de outubro de 2017 07:21

    Eu e meu dinheiro

    Quando falamos em Prêmio Nobel de Economia, imaginamos um sujeito metódico e disciplinado, dedicado a estudos como fenômenos inflacionários, distribuição de renda e outros temas áridos. Pois o vencedor do prêmio deste ano, o norte-americano Richard Thaler, dedica-se à "economia do comportamento". Pode parecer coisa de marciano, mas de fato existe uma área da economia que estuda a forma como nos relacionamos com o dinheiro. E não deixa de ser muito interessante.

    Ele estuda uma coisa chamada contabilidade mental, e como as pessoas simplificam suas decisões financeiras. A forma como usamos o dinheiro tem elementos psicológicos e culturais. De um modo geral, nós agimos de modo irracional ao lidar com ele. Poucas vezes paramos para pensar se aquilo que fazemos (uma compra, por exemplo) é a opção correta naquele momento. Para o economista, raramente agimos de forma racional.

    Isso quer dizer que o nosso relacionamento com o dinheiro não é dos melhores, e tem motivações psicológicas profundas.

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    Vou tentar exemplificar. Você nunca adquiriu algo apenas porque o desconto era bom, e depois aquele objeto ficou mofando no armário? Os economistas chamam isso de "utilidade de aquisição". Ou seja, você está disposto a pagar 100,00, mas consegue comprar por 80,00. Compra com entusiasmo mesmo sem analisar o quanto de utilidade aquela compra trará. Muita gente faz compra desse tipo. Gostamos de um bom negócio, que pode, racionalmente, não ser um bom negócio.

    Algumas empresas conhecem esse mecanismo. Elevam os preços e oferecem 40% de desconto numa mercadoria, mesmo sabendo que o preço final será exatamente o mesmo da semana passada...

    Outro exemplo: por que tanta gente está endividada? A maioria, por decisões irracionais na hora de lidar com o dinheiro. Tenho um amigo que ganha 2 salários-mínimos, e que consegue manter suas contas em dia e até mesmo poupar. Mas também tenho um amigo que ganha 20 salários-mínimos e está devendo uma vela para cada santo. Como explicar isso?

    E aquele movimento de "manada" no mercado financeiro? Quando a bolsa está em alta, milhares de pessoas decidem investir em ações. Todos acreditam (irracionalmente) que as ações continuarão a subir indefinidamente, e fazem a mesma escolha da maioria das pessoas. Não há nenhum bom senso nisso.

    Outro exemplo: você consegue um empréstimo de 5.000,00 para pagar dívidas antigas. Negocia com os credores e consegue quitá-las com 4.000,00. Sobram, portanto, 1.000,00. O que faz com o que sobrou? Gasta em outras compras (viagens, troca de celular, etc.) Não é irracional?

    E quando se faz compra em prestações? Normalmente, as pessoas calculam apenas a parcela que poderão pagar mensalmente. Não avaliam os encargos (juros e tarifas) e portanto não têm noção do custo verdadeiro da compra. É por isso que, muitas vezes, a compra de um automóvel representa, ao final, o custo de dois automóveis para o bolso do comprador.

    Confesso que também já me meti em encrencas semelhantes. Por isso, posso dizer de cadeira: toda a decisão financeira é uma luta entre o bom senso e os atrativos do consumo. Não é fácil, eu garanto.

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    Uma senhora vai ao médico, trazendo a filha menor.

    "Doutor, minha filha engoliu uma nota de 50 reais! É grave?"

    O médico sorriu e respondeu:

    "Não se preocupe, minha senhora. A turma de Brasília já engoliu bilhões nos últimos meses e ninguém foi parar no hospital..."

  • sexta-feira, 13 de outubro de 2017 08:58

    Separatismos

    Nesses tempos em que voltamos a falar de separatismo, existe uma pergunta que nunca foi respondida: por que o nome “Rio Grande do Sul”? Ninguém tem certeza, mas há duas teorias a respeito.

    A primeira diz respeito ao Guaíba, que todos consideravam um grande rio. Mas também há a versão de que o nome foi escolhido por causa da foz da Lagoa dos Patos, que também foi confundida com um grande rio. Os primeiros e precários mapas que falavam desta região foram feitos a partir de 1560, e, obviamente, a confusão sobre os fenômenos geográficos era enorme. Fazer mapas, na época, era uma tarefa inglória.

    Na outra ponta do Brasil, o nome Rio Grande do Norte surgiu justamente para diferenciar do Rio Grande do Sul. Inicialmente a região se chamava Rio Grande, em homenagem ao rio Potengi, e era o nome de uma capitania hereditária doada a um sujeito de nome João de Barros. A razão deste assunto é simples: eu sempre gostei de aulas de geografia.

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    Pois a consulta sobre a separação do Sul recebeu 341.566 votos. Entre os que votaram, a maioria votou “sim”. Esperava-se algo entre 2 e 3 milhões. O total de eleitores dos três estados do sul está perto de 22 milhões.

    Resumindo, a consulta recebeu menos votos do que em ocasiões anteriores. E não deu certo, mais uma vez. Talvez porque o pessoal não concorde com a moeda “pila” e a capital em Lages...

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    Não inventei esta pergunta, mas já a ouvi no mínimo duas dezenas de vezes andando pela cidade.

    “Afinal, o que é que o Rotary está fazendo dentro da praça destinada às etnias, lá no Parque de Exposições?”.

    Eu respondo: “Não tenho a menor ideia. Será que estão querendo se separar dos clubes de serviço e formar uma etnia?.”

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    O dia 12 de outubro, que no Brasil lembra o Dia da Criança e de Nossa Senhora Aparecida, é comemorado em toda a América por causa do descobrimento, que aconteceu em 1492.

    Como sabemos, Colombo buscava uma rota alternativa para as Índias, e chegou à região da América Central, ocupada por milhares de nativos, os quais, equivocadamente, passaram a ser chamados de “índios”.

    Uma questão interessante é saber que Colombo não recebeu todas as glórias a que tinha direito. A homenagem ficou para o nome Colômbia, nosso país vizinho. A América tem esse nome devido a Américo Vespúcio, que mais tarde mapeou desde o Canadá até o nordeste brasileiro. Por isso é que sabemos, hoje, que os navegadores já tinham visitado o Brasil muito antes de Cabral. Mas isso é uma outra história.

    O fato é que os navegadores chegaram ao Novo Mundo e encontraram inúmeras tribos. Era gente bronzeada e pelada. Isso foi um choque para os europeus que ainda viviam na idade média, com dogmatismos religiosos e a inquisição.

    Pois bem. Passados 525 anos da “descoberta” de Colombo, ainda vejo por aqui gente espantada com uma peça de teatro onde aparece gente nua, ou até com pinturas em museus. Descobri, nos últimos dias, que gente que nunca entrou num museu subitamente transformou-se em crítico de arte. Certamente teriam coragem de jogar numa fogueira os quadros que nem os reis europeus de 1500 ousariam queimar.

    Com tantos problemas Brasil afora, preocupar-se com gente pelada em teatro é, no mínimo, falta do que fazer...

     

     

  • sábado, 7 de outubro de 2017 09:54

    Lá vem bala!

    O lado bom da crise é que ela permite falar de todo tipo de assun to. Alguns, mesmo esquecidos, voltam a aflorar. Um deles é a questão do desarmamento.

    Esta semana um doidão norte-americano matou 59 pessoas e feriu mais de quinhentas, sem motivo aparente. O mundo ficou chocado. Pois descobri, na imprensa, que isto é comum por lá. Neste ano de 2017, nos primeiros 275 dias, os EUA registraram 273 tiroteios em massa. É isso mesmo, meu caro leitor. De 1º de janeiro a 2 de outubro, 273 atiradores deixaram um rastro de morte e sofrimento em todo o território norte-americano.

    Neste ano, 11.685 pessoas morreram por disparos de armas de fogo nos Estados Unidos. Isso dá 42 mortes por dia!

    Os dados são da “Gun Violence Archive”, uma entidade dedicada a registrar esse tipo de informação. Estima-se que cerca de 60 milhões de pessoas possuem arma de fogo. Recentemente o presidente Trump cancelou uma lei que impedia a venda de armas a pessoas com deficiência mental. A indústria de armas foi uma das financiadoras da campanha presidencial de Trump, é claro. Daí que qualquer pessoa, literalmente, pode ter uma arma.

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    E o Brasil, como fica? Por aqui o número de mortes é maior. A diferença é que é muito raro o comportamento maníaco que gera mortes em massa. O grosso das mortes acontece em confrontos de gangues com policiais.

    É grande, eu sei, o número de pessoas que defendem o direito de portar arma. Alguns sonham com um mundo onde todos andem armados. Existe um sentimento de virilidade atrás da ideia de andar armado. Argumentam que, assim, os bandidos morreriam de medo e não cometeriam crimes.

    Dizem: “Ah, assim eu posso me defender!” Teoricamente, sim. Na prática, não.

    Os especialistas garantem: a probabilidade de um cidadão ter condição de se defender com uma arma de fogo, num caso de violência, é mínima. O mais provável é que a arma do “cidadão de bem” vá mesmo parar nas mãos dos bandidos, e que o cidadão termine crivado de balas.

    O fato é que, hoje, em razão da lei, o uso é bem restrito. Quem porta arma sem autorização legal, portanto, está cometendo um crime. Por isso o chamamos de “bandido”. Por isso, também, é fácil identificá-los, entende?

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    Mudando de assunto. Em algum momento recente eu disse aqui que o Brasil estava avançando rapidamente em direção ao passado.

    Alguns não entenderam. Ou, talvez, eu não soube explicar. Mas a notícia desta semana (que ocupou um espaço insignificante na imprensa) pode nos ajudar a entender. Uma carta chegou ao gabinete da Presidência da República, em Brasília, na última sexta-feira. Não era uma carta simples. Ela estava assinada por não menos de 23 ganhadores do Prêmio Nobel.

    O que querem estas figuras ilustres, chefiadas pelo físico francês Claude Cohen-Tarnnoudji? Querem que as verbas de ciência e tecnologia não sejam reduzidas pelo Governo, o que, aliás, já vem acontecendo. O cenário é o pior possível. O governo cortou 44% do orçamento dos ministérios ligados à ciência, tecnologia, inovações e comunicações. E quer cortar mais 15,5% no próximo ano.

    Não é preciso muita imaginação, nem muita conversa fiada, para entender o que está acontecendo. As áreas de pesquisa no Brasil estão paralisadas. Muitos cérebros brasileiros (alguns mundialmente conhecidos) já estão deixando o país em busca de locais onde possam continuar suas pesquisas e contribuir para a ciência.

    Também não precisamos de imaginação para concluir que, com isso, estamos “comprometendo seriamente o futuro do País”, como disse a carta. Concordo com eles. O atraso nos espera.

     

  • quinta-feira, 28 de setembro de 2017 18:56

    Coisas da cidade

    O público que lotou o Centro Cívico na semana passada para ver e ouvir Leonardo Boff provou que a cidade está ávida por eventos de peso, com palestras que nos proponham reflexão. Boff, além de escritor com incontáveis obras, é figura conhecida mundialmente, e consultado tanto pelo Vaticano quanto pela ONU.

    Suas reflexões sobre a crise de sobrevivência do planeta são instigantes. O tema deveria estar presente também em nossas conversas diárias.

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    Donos de bares e lanchonetes estão sendo obrigados pela vigilância sanitária do Município a encerrar seus serviços de cozinha às 22 horas. Confesso que não entendi. Aliás, é quase impossível entender.

    Se um viajante chega à cidade após as 22 horas terá de ir dormir sem jantar? E se eu estiver numa sessão de cinema, também não tenho direito a um lanche depois das 10 da noite? E como ficam os comerciantes que têm de dar inúmeras explicações aos seus clientes após este horário, perdendo também em faturamento?

    Eu não sabia que comidas em geladeiras estragam subitamente às 10 da noite. Estranho, muito estranho...

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    Quando falamos de América Latina, falamos de identidade. Um continente cheio de conflitos, produtor de matéria prima e sempre marcado por regimes autoritários. Nossa identidade foi construída especialmente pela literatura e pela música, seja em língua espanhola, seja em língua portuguesa. Nelas encontramos o que somos. O resto é colonização cultural. Quem não lê nossos escritores e não ouve nossa música jamais compreenderá o que é ser latino-americano. É por isso mesmo que a nossa literatura é vigorosa e nossa música é marcante e eterna.

    Certamente você concordava com isto, não é mesmo, Valdir Nilson Ribeiro?

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    Cansado da Semana Farroupilha, o cavalo zaino Trovão, que vive num haras da região noroeste, me ligou para fazer a seguinte reclamação:

    “Fui retirado do conforto da minha baia sem qualquer consulta. Tive de tomar banho em dia frio, me esfregaram, massagearam e me aplicaram perfumes dos quais não gosto. Cá entre nós, é ridículo um garanhão cheirando a jasmim! Depois fui forçado a participar de três desfiles e oito passeios em grupos. Além disso, fui obrigado a ouvir gaiteiros durante 20 horas por dia. Sem falar nos bailes. Foram quatorze bailes! Me amarravam ao lado da porta de entrada do salão e tive de ouvir gaiteiros e violeiros que não paravam nunca. Alguns deles estão precisando frequentar uma escola de música com urgência. Não me colocaram tapa-ouvidos. Nunca me perguntaram se eu estava gostando da música. Além disso, durante esse tempo todo fui forçado a posar para 485 fotografias com crianças e mulheres gordas me cavalgando. E ainda reclamavam se deixo algum cocô pelas ruas da cidade! Ah, e aquelas pilchas todas cheirando a naftalina! Horrível! Também tive de suportar alguns arranhões de esporas, porque tem gaudério por aí que só usa esporas na semana farroupilha e fica atrapalhado como sapo em cancha de bocha. Solicito seu auxílio, Gilberto, para a criação da “Associação de Proteção aos Cavalos de Desfile”. Já tenho muitos cavalos interessados em assinar a ficha de filiação. Pretendemos, futuramente, apresentar uma pauta de reivindicações aos CTGs e Piquetes de toda a região. Ficaremos agradecidos se você puder divulgar as nossas preocupações na imprensa escrita e trombeteada. Agora, preciso descansar...”