• sábado, 22 de setembro de 2018 09:49

    Os farrapos e nós

    A Revolução Farroupilha é tida como a mais longa revolta da história brasileira. Durou dez anos. Mas não foi a única, é importante dizer. Outras revoltas aconteceram no século em que o Brasil assumia seus contornos como nação. Na verdade, ainda éramos, na época, uma colônia em busca da sua própria identidade. No período tivemos importantes revoltas no Maranhão, no Pará e na Bahia.
    Em 1821 o governo central resolveu taxar os produtos gaúchos, como charque, erva-mate, couro, graxa etc. Além disso, taxou a importação do sal, um produto indispensável para a nossa produção do charque (e para fazer um churrasco, é claro). Estava criado o clima para a revolta que até hoje estudamos, liderada por estancieiros e charqueadores, e que arrastou também para a guerra os gaúchos mais pobres. Estes não receberam qualquer dividendo da revolta até os dias de hoje.
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    Aqui na região noroeste do RS temos poucos resquícios da revolta farroupilha. Na verdade, esta nossa região ficou fora do conflito. As movimentações de tropas envolveram basicamente a região sul e o litoral. Por aqui, a colonização propriamente dita começaria bem mais tarde, como sabemos. Lá por volta de 1890. Por isso, falar de revolução farroupilha aqui no noroeste é tecer elogios a um movimento que, na prática, pouco tem a ver com a história local.
    Mas quem aprecia a história gaúcha deve fazer um passeio por cidades como Piratini, Rio Grande e Pelotas. Além, é claro, da capital gaúcha. Nelas encontramos os registros históricos e a presença ("viva", digamos) de edificações da época, que lembram uma fase áurea da nossa economia baseada no gado.
    Pois assim como aconteceu na Argentina, também a economia do couro e do charque no Rio Grande do Sul teve um fim. Mas isso já é outra conversa.
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    Diferente do que ocorreu com as outras revoltas, a Revolução Farroupilha acabou mediante um acordo. Nas demais, o fim aconteceu com massacres que envergonham a nossa memória, embora por aqui tenhamos o triste episódio dos Lanceiros Negros, também vergonhoso.
    O chamado "Tratado de Paz de Ponche Verde" marcou o fim da guerra, estabelecendo a anistia aos rebeldes, o direito de escolha do presidente da província, o perdão das dívidas dos revoltosos, alforria aos escravos que lutaram e a taxação do charque platino.
    Um tema pouco comentado pelos historiadores é que, por detrás da revolução, havia um permanente temor de invasão do Rio Grande por parte forças espanholas e platinas. Os desentendimentos, neste caso, vinham desde o tempo do Tratado de Tordesilhas, numa região do continente sempre marcada por disputadas de territórios, incluindo aí a notável história das Missões Jesuíticas. Portanto, temer a invasão era algo natural, o que não era desejado nem pelos revoltosos, nem pelo governo central.
    Aliás, precisamos lembrar que, enquanto os gaúchos se revoltavam, também os uruguaios se revoltavam contra o Brasil. A independência do Uruguai aconteceu em 1825, durante a revolução farroupilha. Até então a Província Cisplatina pertencia ao Brasil. A história desse entrelaçamento histórico que hoje forma a proximidade geográfica Brasil-Argentina-Uruguai é mesmo riquíssima e merece ser melhor estudada.

  • sábado, 25 de agosto de 2018 09:41

    Culinária alemã

    Uma das muitas histórias da minha família diz que meu bisavô (ou tataravô) materno teria sido um oficial do exército de Napoleão no tempo em que o baixinho dominou a Europa. Um oficial, evidentemente. Se fosse cozinheiro do quinto exército ninguém falaria nele. Um oficial, porém, já é motivo de orgulho familiar. Meio alemão, meio francês. Isso dá um toque de requinte à estirpe da família. Nas conversas familiares, nós acrescentamos sempre coragem e bravura ao nosso antepassado, atributos que ninguém sabe se são verdadeiros.

    Pois dizem que nas guerras napoleônicas surgiu um dos pratos mais famosos da culinária alemã, o "eisbein", que nós conhecemos inapropriadamente como "joelho de porco". Na verdade, é o joelho e a canela do animal.

    Em algum momento do conflito faltou alimento e Napoleão teria reunido a tropa para explicar:

    - Acabou a comida, galera!

    - O que temos para comer? - perguntaram.

    - Só joelho e canela de porco.

    - Arhghhh.... - responderam os soldados.

    - As alternativas, hoje, são rato ao molho de queijo ou sopa de botina de soldado italiano morto - disse Napoleão.

    - Então manda o tal joelho...

    Assim, o joelho de porco entrou para a culinária e hoje é apreciado mundo afora. Pelo menos, é o que contam. Não sei se o meu bisavô tem algo a ver com essa história, mas sempre que me oferecem o "eisbein" eu respiro fundo e penso: "Do que sou capaz para homenagear a memória do bisavô"....

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    Outro prato que teria surgido na guerra napoleônica era uma mistura de cabeça de coelho, repolho cozido, raiz de pinheiro suíço e pão de batata amanhecido. Recebeu o carinhoso nome alemão de "Gutrexzienezendebergest". Como sabemos, a língua alemã é pródiga em produzir palavras bem sintéticas.

    O prato não se tornou um sucesso como o "eisbein", possivelmente por conta da pronúncia do nome. Ainda bem.

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    Não, juro que não estou sendo ingrato com a culinária alemã. Mas é preciso cuidado. Eles estão acostumados, por exemplo, com cerveja boa e salsicha de alta qualidade, combinação quase diária para a mesa do lar. Se você fizer o mesmo com a nossa cerveja e com a nossa salsicha, prepare-se para os gases.

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    O "pretzel" é um pão enorme e saboroso, que pode ser doce ou salgado. O "schnitzel" é parecido com o nosso bife à milanesa, acompanhado de batatas e rodelas de limão. Também é gigante. O "strudel" é um doce bem conhecido por aqui, uma espécie de folhado feito com maçã.

    Para confirmar que não estou sendo ingrato, vale acrescentar o "chucrute" (a partir do repolho fermentado) e o "wurst" (qualquer coisa feita com salsicha. Por lá há mais de 1500 tipos de salsichas) e o "apfelstrudel", um folheado com maçã, canela e uva passa. São ótimos.

    Acho que muitas destas receitas o meu antepassado militar não chegou a conhecer. Por isso mesmo, livrou-se do apelido de "alemão batata". Mas que foi um cara de coragem, ah, foi...

  • sábado, 16 de junho de 2018 09:15

    Futebol

    Um recorde de apatia no país do futebol. Ainda segundo a pesquisa, interessados de fato são apenas 18%.

    Qual a explicação para isso? Ninguém sabe exatamente, mas parece que a convulsões político-jurídicas do país contaminaram a nossa paixão futebolística. A falta de esperança no futuro abalou a nossa confiança no time do Tite.

    Não há bandeiras nos carros. Não há ruas coloridas. Não há pessoas trajando a camisa canarinho. Talvez durante a Copa o clima mude, o que seria bom.

    Realmente, é uma conjuntura inesperada. Há quem diga que a camisa amarela está amaldiçoada pois foi o fardamento usado para causar o impeachment da presidente Dilma e toda a crise que provocou. Acho que não é para tanto, mas a desesperança parece ser a tônica, e o desencanto chegou a tal ponto que abateu nossa paixão futebolística. Confesso que eu nunca tinha visto nada igual.

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    Acredito que isso tem a ver com a desconfiança generalizada nas lideranças brasileiras. Não temos mais líderes confiáveis. Nem na política, nem no futebol, pois os escândalos da Fifa envolvendo os executivos brasileiros também ajudaram nesse contexto. Nem no meio empresarial existem lideranças sólidas e sérias. Sempre que surge algum empresário opinando sobre o futuro, surgem também os escândalos do seu passado. Fica difícil.

    Como sou torcedor e gosto do futebol, espero que o esporte nos traga novos ares. Pode até não ser o título mundial. Basta que a Copa nos devolva um pouco da alegria que sempre nos embalou.

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    Mas você já observou a Copa em seus detalhes?

    No grupo B, Portugal e Espanha vão decidir o primeiro lugar numa mesa de negociações na cidade de Tordesilhas.

    Holanda e Itália estão fora da Copa. Parece que vão fazer um amistoso em Amsterdã, rolando um baseado, sem se preocupar com exame antidoping.

    Depois de muitos anos, o Peru voltou à Copa. No último jogo da fase classificatória, um jornalista peruano publicou: "Peru cresceu e vamos disputar a Copa". E outro: "Foi apertado, mas o Peru entrou".

    Vitaly Mutko é o presidente do comitê organizador da Copa. O russo não se dá muito bem com o inglês, e quando fala à imprensa torna-se engraçado. Fica parecendo o Joel Santana: "I don't like embromation. I like ball in the barbante!".

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    Quando criança, eu sempre imaginava aquele time do campinho da escola disputando uma Copa do Mundo. Minha seleção, com base naqueles colegas, seria a seguinte: Aspirina, Cova, Mandrake, Verruga, Troncudo, Sem Sono, Dedão, Macarrão, Dentinho, Bolacha e Vitamina C. Nenhum deles virou craque. Acho que hoje em dia estão mais interessados em peladas. No sentido literal.

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    Em 2026 a Copa acontecerá em três países: México, Canadá e Estados Unidos. Terá 48 seleções, 24 a mais em relação à Copa de 1994. Desse jeito, em 2050 teremos uma copa com 80 países e duração de três meses.

  • sexta-feira, 3 de agosto de 2018 15:44

    Revistas velhas

    Eu cresci lendo revistas. Acho que muitos de vocês, leitores, também gostavam de revistas (semanais ou mensais). Olhando para o mundo de hoje, em que a informação vem pelo celular, parece até antiquado falar nelas.

    Algumas publicações se tornaram digitais, abandonando a versão impressa. Mas estou falando da revista que buscávamos na banca. Em casa folheávamos avidamente, sentindo o cheiro do papel e da tinta. Essas, definitivamente, estão acabando. Aliás, a imprensa escrita está sofrendo.

    O jornal Zero Hora, por exemplo, que já teve 250.000 exemplares diários, hoje não passa de 75.000. O Globo, do Rio, de 400.000, hoje tem 120.000. O grande impacto, porém, ocorreu com as revistas. A revista Veja já teve tiragem de 1,2 milhão de exemplares. Hoje está com 300.000, e caindo. A editora Abril já foi a maior da América. Na semana passada vendeu seu controle acionário.

    Muitas revistas simplesmente desapareceram. Quem não lembra, só para dar alguns exemplos, da "Placar" e da "Manchete"? Quando garoto, eu gostava tanto que fazia coleções de algumas delas. Acho que agora estou virando um saudosista.

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    Uma coisa que sempre me intrigou. Por que as revistas de consultórios médicos são sempre velhas? Será que os médicos são mesquinhos e só levam para o consultório aquelas velharias que têm em casa?

    Pois saiba que este é um fenômeno mundial. A Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, estava meio sem ter o que fazer, e decidiu realizar uma pesquisa a respeito. Colocaram diversos tipos de revistas (87 no total) em consultórios e, após algum tempo, foram verificar o que tinha ocorrido. A conclusão é interessante. As revistas de fofocas desapareceram (ou seja, foram furtadas pelos clientes). Das revistas de leituras e notícias (The Economist ou National Geographic) poucas desapareceram. O estudo chegou a ser publicado, como curiosidade, numa revista de ciência médica.

    O resultado, se é que serve para alguma coisa, pode trazer as seguintes conclusões: (A) revista de fofocas desaparece; (B) leituras "pesadas" permanecem; e (C) ter wi-fi no consultório ajuda muito nos dias de hoje.

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    Falando em coisas velhas, a eleição que se aproxima já está mostrando que, na política, coisa velha funciona. Não estou falando de político idoso, e sim das práticas políticas do Brasil, muito velhas, e das estratégias que acabam estabelecendo as coligações.

    Vai ter candidato comprando siglas, comprando eleitores, comprando apoio de outros políticos. Em síntese, os representantes da velha e podre política brasileira continuarão nos palanques. Por isso, quase nada de novo aparecerá na próxima eleição. Não vamos nos iludir. Mas isso não significa que o nosso voto não tenha importância. Tem muita importância, sim.

    Antes de votar, faz-se necessária após profunda reflexão. Especialmente precisamos perceber que a grande maioria dos congressistas, embora eleita pelo povo, age contra os interesses do povo. Na prática, atuam para defender a própria elite que os financia. É uma questão estrutural que nos acompanha desde o Império. A esfera política é vista como algo que pertence às elites corruptas. O povão deve ficar bem distante para que não perceba o que realmente acontece. Essa velha prática é que distancia as coisas públicas do, digamos, público propriamente dito.

    Por tudo isso, seu voto é importante. Talvez jamais tenha sido tão importante. Pense bem no que irá fazer com ele no próximo pleito.