• segunda-feira, 11 de junho de 2018 08:14

    De tudo um pouco

    Em cada crise, um aprendizado. Assim como na nossa vida pessoal, também nas crises públicas precisamos aprender alguma coisa. Não temos todas as soluções, pelo menos temos otimismo. Veja o caso da paralisação dos caminhoneiros, dias atrás. Atrapalhou a vida de todos. Mas algumas coisas ela nos ensinou. Veja só.

    A poluição nas grandes cidades brasileiras foi reduzida à metade. Só isso bastaria para comemorarmos. A vida intoxicada melhorou. Sem contar o ruído, que também reduziu muito. Os moradores das nossas capitais tiveram uma experiência de cidade interiorana.

    Outro benefício foi o uso de bicicletas. Só em Porto Alegre o uso das bicicletas públicas (bicicletas de aluguel mantidas pela prefeitura) aumentou em 300% nos dias dos bloqueios das estradas. Milhares de carros deixaram de circular. Muitas pessoas "descobriram" que podem viver o seu dia sem automóvel. Ótimo!

    E tem mais. Muita gente que não ouvia falar de mercado de petróleo descobriu que o Brasil tem petróleo sobrando, mas que prefere comprar no exterior, a um preço 20% maior do que lhe custaria a própria extração. Jamais saberíamos dessa burrice se não fosse a paralisação dos caminhoneiros.

    Vivendo e aprendendo, pois. Sem perder o otimismo.

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    O campus da UNIJUÍ em Santa Rosa está em festa, comemorando 28 anos de atividades. Inicialmente, lá em 1990, a universidade aportou na cidade mediante convênio com o Colégio Dom Bosco. O campus próprio, ao lado da rodovia RS-344, foi inaugurado em 2000, e hoje oferece os cursos de Ciência da Computação, Direito, Educação Física, Engenharia Civil, Engenharia Elétrica, Tecnologia em Gestão de Cooperativas, Pedagogia e Psicologia.

    Não é só a universidade que comemora. Santa Rosa e a região noroeste também.

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    O governo alterou mais uma vez a política de reajuste do salário-mínimo. Assim como neste ano, em 2019 também irá reduzir o percentual. Ou seja, o salário está perdendo poder de compra rapidamente. Usei a expressão "poder de compra" de propósito, pois quando ouço um comerciante, por exemplo, defendendo a redução dos salários, eu perco a fé na inteligência humana.

    "Poder de compra" é a capacidade que tem um determinado salário de comprar coisas como um quilo de carne, um desodorante, um tijolo ou um refrigerante. Ou seja, se o poder de compra é menor, menores serão as compras. O dinheiro não gira. A riqueza social não acontece.

    É impressionante ver lojistas defendendo esse posicionamento. Não percebem que estão cozinhando o próprio veneno?

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    Terça-feira próxima é o Dia dos Namorados. Iniciar um namoro é um dos momentos mais tensos e angustiantes da vida do ser humano. Um passo no escuro. O diálogo a seguir aconteceu com um amigo. Poderia ter acontecido comigo. Ou com você. Quem iniciou o diálogo foi o meu amigo, e o resultado não foi o esperado. Só para mostrar como todo começo pode ser difícil.

    - Posso te pedir em namoro?

    - Pode.

    - Quer namorar comigo?

    - Não.

  • sábado, 2 de junho de 2018 11:48

    Palavras da moda

    Caminhoneiro ou camioneiro? A dúvida ortográfica surgiu na semana passada, por motivos óbvios. A forma
    mais aceita é a primeira, mas a segunda também vale, embora seja considerada arcaica, assim como "camionista", ambas muito estranhas.
    A palavra francesa "camion" virou "camião" em Portugal, onde é usada até hoje. Aqui no Brasil misturou-se com "caminho" e o veículo virou "caminhão". Mas também temos por aqui a camioneta (e não caminhoneta).
    Por estas razões a questão é de menor importância. Mas o uso generalizado é mesmo "caminhoneiro". O problema não é a palavra, mas o preço do diesel.
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    Locaute foi outra palavra muito usada na semana, mas aqui precisamos explicar alguns detalhes. A greve, por definição, é movimento organizado por trabalhadores para forçar o atendimento de seus pleitos. Regra geral, acontece nas datas-bases das categorias. Portanto, não é coisa de patrões.
    Já o "locaute" (do inglês, lockout) é uma situação bem distinta. É a situação em que os empregadores impedem seus empregados de exercerem seu trabalho, sem justificativa ou autorização legal, com o propósito de obter vantagens ou de prejudicar os próprios trabalhadores.
    A discussão que se instalou é a seguinte. A paralisação dos caminhões foi, em parte, um locaute? Em termos legais, podemos dizer que os patrões podem fazer movimentos reivindicatórios, sim. Mas não podem prejudicar a atividade produtiva para pressionar o governo. Existe aí a questão da responsabilidade social da empresa.
    A indefinição envolve o fato de que, no caso, o movimento envolveu tanto empregadores (empresas de transporte) quanto caminhoneiros autônomos.
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    O uso da palavra "greve", no caso, é tecnicamente errado. O mais correto é "paralisação". Greve é direito de empregado. Aí vem a contradição. Empregado motorista faz greve para reivindicar em relação ao patrão. Mas quando envolve empregados, patrões e autônomos, é certo que se trata de paralisação.
    Mas é preciso esclarecer que fica mais bonito escrever a palavra corretamente. Vi inúmeras manifestações escritas (na beira das estradas e na internet) onde a palavra apareceu grafada como "paralização".
    Confesso a vocês que aquela letra "z" lá no meio dói nos olhos...
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    Outra expressão que ressurgiu com força foi "modal de transporte". Ela é mais usada para o transporte ferroviário, e designa partes (rotas) da rede total de trilhos de uma região do país. O transporte ferroviário foi abandonado pelo Brasil nos anos 1960, em favor da indústria automobilística. Até então tínhamos uma rede modesta mas muito proveitosa para as necessidades da época.
    A partir de então, toda essa rede foi dilapidada para que a indústria automobilística se consolidasse. Nem preciso comentar a falta que isso nos faz hoje em dia. O transporte ferroviário tem baixo custo, inexistência de pedágios, baixo risco de acidentes, baixa poluição ambiental, baixo custo de manutenção, transporta grandes quantidades e a longas distâncias.
    É claro que, diante das dificuldades atuais, não vamos instalar modais de transporte ferroviário de uma hora para outra. Isso envolve política de infraestrutura de longo prazo. Mas serve para mostrar que nós, brasileiros, só sabemos pensar em curto prazo, e isso é uma tragédia.

     

  • segunda-feira, 28 de maio de 2018 10:49

    Números

    Não deixa de ser engraçado. A Receita Federal emitiu nota alertando as pessoas sobre um novo golpe em todo o país. Cidadãos que mantém empréstimos em bancos estão recebendo um boleto, onde se informa que se trata do Imposto sobre Operações Financeiras, o IOF. Primeiramente, é preciso lembrar que esse imposto é recolhido pelo banco que lhe deu o empréstimo, e não pelo mutuário. Ninguém deve pagar o tal boleto. Mas a Receita Federal esclarece mais um detalhe, chamando a atenção dos cidadãos para o fato de que a carta que acompanha os boletos, enviada pelos falsários, tem erros de português.

    Resumo do caso: até para dar golpes na praça é preciso escrever corretamente...

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    O desemprego está outra vez assustando os brasileiros. Pesquisa do IBGE divulgada no final de abril informa que já são 27,7 milhões de pessoas desempregadas, ou seja, 13,1% do total de mão de obra disponível.

    O fator mais preocupante da pesquisa, no entanto, está na faixa etária entre 18 e 24 anos, justamente aqueles que estão procurando emprego pela primeira vez após a faculdade. Entre esses jovens a taxa de desemprego está em 25,9%, um índice assustador (um quarto de todos esses jovens).

    Na faixa entre 14 e 17 anos, que envolve basicamente os aprendizes, o percentual é ainda maior: 39,7%. Aonde vamos parar?

    ***

    Na semana em que o grande debate foi o preço dos combustíveis, veja essa informação perturbadora. Nos primeiros quatro meses deste ano o Brasil pagou R$ 8,7 bilhões pela importação de óleo diesel.

    Isso mesmo. Pode acreditar. Estamos importando muito óleo diesel, e com o aumento do preço do petróleo, esta conta está cada vez mais salgada.

    Ocorre que o governo decidiu reduzir a produção das refinarias brasileiras, suspendeu obras em andamento nas mesmas refinarias, e, como já sabemos, está vendendo o nosso pré-sal. Ou seja, em breve vamos comprar (e caro) o petróleo extraído no nosso oceano. Parece piada, mas não é.

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    Enquanto isso, os vizinhos argentinos estão à beira de um ataque de nervos. O juro básico da economia, que era de 27,5% ao ano, saltou para 40% na semana passada.

    A causa disso é que uma pequena elevação dos juros norte-americanos, no mês passado, provocou uma fuga de dinheiro dos países emergentes, como é o caso do Brasil e Argentina, em direção aos Estados Unidos. Com isso, a cotação do dólar sobe. Quando o dólar sobe, os produtos internamente também sobem (muitas matérias-primas e componentes são importados). Na Argentina a inflação anual está em torno de 25%. O governo, então, eleva a taxa interna para conter o consumo e tentar baixar o preço das mercadorias. Esta estratégia também já foi usada no Brasil.

    É um jogo arriscado, pois tudo isso também causa um impacto muito desagradável, a recessão. Ou seja, a indústria reduz a produção, e o desemprego volta a atormentar, o consumo cai, lojas fecham as portas. Parece até um remédio que alimenta a ferida. E para os argentinos, isso já parece uma ferida que nunca cicatriza. E já estão concluindo que o tal governo Macri é mesmo um desastre...

    No inverno da recessão, eles se consolam com os bons vinhos que produzem. Menos mal.

  • sábado, 12 de maio de 2018 09:21

    Coincidências

    Você reparou que neste domingo, 13, comemora-se oDia das Mães e também o dia da Abolição da Escravatura? Uma simples e interessante coincidência do calendário, que serve para algumas reflexões.

    ***

    Apenas por curiosidade, veja alguns exemplos de mulheres que, além de mães, foram cientistas notáveis, com enormes contribuições ao desenvolvimento científico da humanidade. Num mundo dominado pelos homens, elas são pouco lembradas, é verdade. Provavelmente você nunca ouviu falar delas. Sinal de machismo que não retira seus méritos.

    Chu Ming Silveira, uma chinesa naturalizada brasileira, inventou o famoso orelhão, que enfeitou as ruas do Brasil durante décadas.

    Hedy Lamarr foi atriz de cinema em Hollywood, mas também inventou a tecnologia sem fio. Seus conceitos de controle à distância, durante a guerra, serviram de base para coisas hoje comuns, como o controle remoto, o wi-fi e o bluetooth.

    Grace Hopper, uma negra norte-americana, inventou o compilador de linguagem de máquina que deu origem ao Cobol, primeira linguagem de programação voltada ao uso comercial.

    Florence Parpart inventou a geladeira, sem a qual a vida hoje é impossível.

    Shirley Jackson, outra negra, inventou (nada menos que...) o fax portátil, os tons de telefones, células solares, cabos de fibra óptica, e toda a tecnologia por trás do identificador de chamadas e da chamada em espera.

    Essas mulheres, e muitas outras que poderíamos mencionar, mostraram que, na verdade, não há diferenças. O que há, de fato, é o ocultamento dos feitos femininos, e a supervalorização dos feitos masculinos. Já vai longe o tempo em que ser mãe era sinônimo de "dona-de-casa". Por mais espantoso que pareça, hoje as mulheres conseguem cumprir esses dois papéis, e ainda exercer atividades profissionais com altíssima competência.

    Cá entre nós, machões de plantão, nenhum homem conseguiria fazer isso.

    ***

    Você deve ter reparado que, ao citar algumas mulheres, fiz referência a duas "negras". À primeira vista, parece racismo, pois as outras mulheres não foram chamadas de "brancas" ou algo parecido. Confesso que foi proposital.

    Justamente porque estamos falando do dia das mães e do dia da Abolição da Escravatura (acontecido em 1888). De lá para cá o mundo mudou radicalmente, mas o sentimento escravocrata ainda é visível na sociedade brasileira. A abolição, que significou um terrível abandono, também reproduziu o sentimento de "inferioridade", fechando à massa humana de cor as portas das empresas, das universidades e até das comunidades religiosas.

    Nossa classe média, pródiga em propagar seus predicados éticos e morais, acalenta o sonho do eterno "quarto da empregada", lá nos fundos da mansão. Na mídia, o ideal de beleza e êxito profissional nunca tem a cor escura. São apenas dois exemplos de que ainda precisamos avançar muito para superar o racismo que, no Brasil, tem uma especial predileção por atingir mulheres.

    Produz marcas na cultura e no íntimo das pessoas. Às vezes, são marcas que jamais são apagadas. Especialmente entre nós, que sempre negamos o racismo, jogamos para debaixo do tapete, como se ele não existisse. Por isso, as lutas das mulheres, ao lado do combate ao racismo, são bandeiras modernas e valiosas. Dignas bandeiras desta metade do século 21.