• sexta-feira, 29 de dezembro de 2017 08:44

    Papo furado de final de ano

    Época de fazer planos. Nem todos são realizados, eu sei, mas planejar já é um bom início. Só não cometa aquele erro tão comum de quem diz que faz planos para o futuro. O mesmo acontece com fazer projetos. Alguém faz planos ou projetos para o passado?

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    Não crie expectativas. Crie porcos. Se nada der certo, pelo menos você tem o bacon.

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    Corra atrás dos seus sonhos. Se nada der certo, pelo menos você emagrece.

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    Lembre-se: o que te engorda não é o que você come entre o Natal e o Ano Novo, mas sim o que você come entre o Ano Novo e o próximo Natal.

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    Neste ano o Papai Noel me deixou a ver navios. Escrevi uma carta pedindo um botijão de gás, um tanque de gasolina cheio e um vale-transporte mensal da Toda Hora. O velhinho achou que eu estava de brincadeira...

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    Os santa-rosenses não podem reclamar dos presentes recebidos no Natal: aumento do gás, aumento da luz elétrica, aumento da gasolina, aumento do transporte urbano e, possivelmente, o 13º dos vereadores.

    Isso é o que eu chamo de Natal gordo...

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    Os anjos citados na Bíblia chamam-se Miguel e Gabriel. Pelo menos é o que sei (e sei muito pouco, diga-se de passagem). Mas nesse mês de dezembro descobri outros anjos, de uso menos divino, digamos.

    Descobri que Geromel é o anjo protetor dos gremistas. Abel é o protetor dos colorados, mas cansou e desistiu. Coquetel é o anjo protetor da boca livre e dos furões de festinhas particulares. Meneghel é o anjo protetor dos baixinhos e nasceu em Santa Rosa. Ravel é o anjo protetor dos boleros. Abravanel é aquele anjo que aparece aos domingos, distribui cédulas de dinheiro e nasceu quando a Bíblia ainda era rascunho.

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    Aviso na porta da Paróquia:

    "Prezadas senhoras, não esqueçam que último sábado do ano teremos a feira para arrecadar fundos para a beneficência. É uma boa ocasião para se livrar de coisas inúteis que há na casa. Tragam seus maridos!".

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    A secretária da médica ginecologista pergunta para a mulher que acaba de entrar no consultório:

    "A senhora veio fazer o pré-natal?"

    "Mas você é mesmo burra, minha filha. Vim fazer o pós-natal. Você não sabe que o Natal foi na segunda-feira passada?"

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    Num shopping em São Paulo as pessoas reclamaram porque viram um Papai Noel negro, e diziam: "Não existe Papai Noel negro". Pois é. Para eles, Papai Noel branco existe. Devem também acreditar em Saci Pererê, em Boitatá, em Bolsonaro...

  • sexta-feira, 22 de dezembro de 2017 16:17

    Dezembro e suas aventuras

    Além daquelas festas tradicionais, dezembro também é marcado por formaturas. Isso mesmo. Formaturas de ensino fundamental e médio (coisas que não existiam tempos atrás) e formaturas universitárias. Apesar de enfadonhas e intermináveis, as cerimônias podem nos fazer pensar sobre o eterno rodar da carroça da vida. São jovens entusiasmados, cheios de energias e planos. É bonito vê-los mergulhados em alegria e confraternização. Também descobrimos que já não somos tão jovens. O nosso nenê, que há poucos dias precisava de ajuda até para escolher um calçado, agora tem diploma, pensa por conta própria e escolhe seus amigos sem nos consultar. Que coisa!

    Fico pensando: será que meus pais tiveram essa estranha sensação? Pode até ser desconfortável, mas é inevitável. O tempo transcorre independente do nosso controle. Um dia eles, os piás, estarão esperando a formatura de seus filhos. O que também é bonito só de imaginar...

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    Falando sobre o tempo e a finitude da vida, lembrei de uma frase de uma amigo, dita tempos atrás durante uma conversa descontraída:

    "A vida é sábia, e termina. Talvez seja sábia justamente porque termina. Imagine, por exemplo, gente como o deputado Eduardo Cunha e o Aécio Neves vivendo 300 anos! Impossível calcular o tamanho da desgraça".

    Pois é verdade. A vida precisa mesmo terminar em algum momento. E a renovação (vide os formandos por aí) é sempre necessária.

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    O sujeito foi levado ao juiz para explicar do que estava sendo acusado:

    - É porque fui buscar os presentes de Natal antes do momento certo, doutor.

    - Como assim? Você não pode se antecipar para buscar os presentes?

    - É que eu estava buscando antes de as lojas abrirem...

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    Parece invenção, coisa inacreditável, mas tempos atrás conheci um sujeito que faz parte de uma anedota. Comentei o fato com ele, e recebi a confirmação. Ele já conhecia a anedota e volta e meia era obrigado a ouvi-la. Pois vamos a ela:

    - Sabe o nome do cara que montou o primeiro presépio, lá em Belém?

    - Não sei, não.

    - O Armando Nascimento de Jesus.

    A propósito, o apelido dele é Jesuzinho. Juro.

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    A propósito, você sabia que ainda hoje existe polêmica sobre o local onde nasceu Jesus? É verdade. A história clássica, e lida em todas as igrejas cristãs, diz que Cristo nasceu em Belém pois a família viajara para lá em plena gravidez de Maria. O evangelho de Mateus, escrito muito tempo depois, afirma que ele nasceu em "Belém de Judá".

    Pois há quem diga que essa afirmação buscava revestir Jesus das características previstas para o messias. Defendem que, em todo o novo Testamento, ele é chamado de "Jesus, o nazareno" ou "Jesus de Nazaré". Isto é, aquele que nasceu em Nazaré, pois naquela época não existiam sobrenomes.

    Se a polêmica persiste, é certo que não vai alterar a fé de ninguém. O bom é que, no Natal, lembremos daquela bela história e de os ensinamentos que ficaram. Estes, sim, andam bem esquecidos...

  • segunda-feira, 18 de dezembro de 2017 08:56

    Quem somos nós, os brasileiros?

    Essa é uma pergunta cuja resposta buscamos há muito tempo. Muitas reflexões resultaram em milhares de páginas. Muitas cabeças pensantes já se debruçaram sobre a nossa história e nossa sociologia, buscando entender o Brasil e os brasileiros. Talvez, para a construção sólida de um país, todos os brasileiros deveriam fazer essa pergunta e pesquisar as respostas já encontradas. Há muitos e bons livros tratando do assunto.

    Não é tarefa fácil num país que não lê. Como conhecer a nossa formação como povo e nação? Como chegamos até aqui? Quem somos, afinal? Que país é este que construímos? Qual o Brasil que desejamos no futuro? Não falo do futuro em 2018. Falo do futuro além de nós. Será que já pensamos nisso, ou ficaremos eternamente cuidando das migalhas diárias e da nossa mesquinhez?

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    Para entender a crise político-sociológica atual, duas sugestões de livros. Primeiramente, "A democracia impedida - o Brasil do século XXI", do professor Wanderley Guilherme dos Santos (Editora FGV). Depois, um dos livros mais vendidos deste ano, "A elite do atraso - da escravidão à Lava Jato", do sociólogo Jessé Souza (Editora Leya). Também é dele "A radiografia do golpe", uma análise dos fatos recentes.

    Nestas obras, a análise do Brasil dos últimos anos, marcado por ressentimentos culturais, ódios políticos e irresponsabilidades jurídicas. Vale a pena.

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    Mas isso não basta. Para entender quem somos precisamos buscar reflexões que remontam à formação do Brasil, à própria história.

    Por isso, antes de entrar em discussões sobre o que é certo ou errado, leia livros como "Os brasileiros" e "O povo brasileiro", ambos do Darcy Ribeiro. Também leia, do Gilberto Freyre, "Sobrados e mocambos" e "Casa Grande & Senzala". Do Alberto Passos Guimarães leia "Quatro séculos de latifúndio". Do mestre Sérgio Buarque de Hollanda procure "Raízes do Brasil" e "Visão do Paraíso". Também vale se aventurar na extensa "História geral da civilização brasileira", também do Sérgio, e que tem 11 volumes.

    A lista deve incluir "Os sertões", de Euclides da Cunha, e "Coronelismo, enxada e voto", de Vitor Nunes Leal. Também é ótimo o "Formação do Brasil contemporâneo", de Caio Prado Júnior.

    É bom acrescentar também Raimundo Faoro, com o clássico "Os donos do poder" e, do Boris Fausto, "História do Brasil". Sobre a história mais recente, indispensável é "Brasil: nunca mais", obra já clássica que reúne farta documentação sobre a ditadura.

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    Você já percebeu que a lista é pequena. Poderia ser muito maior. Mas são obras clássicas e fundamentais, lidas obrigatoriamente em universidades brasileiras e estrangeiras. Eles modificam a nossa cabeça.

    Mas para quem deseja entender de onde viemos, e como nosso país chegou ao Brasil que conhecemos hoje, o nosso Brasil contemporâneo, são alguns livros que não podem ignorados.

    Acho que se todos lessem esses livros (e muitos outros, é claro), o nível do debate seria outro. Mais elevado, mais qualificado. Pois (creio que concordamos nesse particular) a qualidade das discussões sobre política, história e sociologia, anda muito baixa. Pelo que tenho visto (e escutado) tem muito cego por aí querendo ser condutor de outros cegos.

    Assim, não se chega a lugar nenhum.

  • sexta-feira, 1 de dezembro de 2017 14:47

    O cheque do leite

    Essa expressão - "o cheque do leite" - é bem típica da nossa região.

    São milhares os pequenos agricultores (em boa parte do Estado) que, para complementar o orçamento doméstico, contam com o cheque do leite pago pela indústria periodicamente. Enquanto esperam pela colheita de outras plantas, como soja, milho e mandioca, o cheque do leite garante a cobertura das despesas mensais.

    É uma renda habitual, e não é incomum ouvir o agricultor dizer, lá no mercadinho da vila onde compra na caderneta: "Vou pagar com o cheque do leite".

    Pois essa realidade mudou. Nas últimas semanas conversei com diversas pessoas que simplesmente abandonaram a produção de leite. Não sabem o que fazer com os equipamentos instalados em suas propriedades, e também não têm ideia se um dia voltarão a comprar vacas leiteiras.

    Segundo algumas fontes ligadas ao setor leiteiro, mais de 20.000 produtores se retiraram da atividade entre outubro/2016 e outubro/2017.

    A queda no valor pago ao produtor é a principal razão. O mercado monopolizado é outra. Os produtores com alto grau de investimento e especialização continuam produzindo, mas os pequenos, com produção mais rudimentar, já não conseguem esperar o cheque do leite. Há outras razões em debate, como a importação do leite uruguaio, a redução da compra de leite pelo governo federal, o aumento do consumo do leite vegetal, entre outras.

    Não há solução mágica à vista, mas a mobilização dos produtores pode, sim, gerar soluções que envolvam todo o sistema. Ou seja, é algo complexo. O que não pode acontecer é fazer de conta que o problema não existe.

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    Falando em atividades do campo, é interessante observar uma importante mudança que vem acontecendo na região noroeste, especialmente nas áreas fronteiriças. A mudança na paisagem é visível em municípios próximos como Alecrim, Novo Machado, Porto Vera Cruz e em outros cuja topografia é muito acidentada. Por lá, estão desaparecendo as lavouras extensivas como soja e trigo. Aliás, em algumas áreas lavouras já não existem.

    O que vemos são áreas se transformando em mato, para futura extração de madeira, e também extensos espaços destinados à criação de gado para abate. As paisagens são verdes o ano todo.

    São regiões onde, em décadas passadas, os homens do campo se lançaram desesperadamente na monocultura (soja e trigo, especialmente). Mas a monocultura foi perversa. A renda caiu abruptamente. Os jovens desistiram. O campo se esvaziou ou restou a população envelhecida. Os que ainda estão lá já não têm forças físicas para enfrentar o trabalho na lavoura. Os municípios perderam grande parte de sua população. Nem as escolas públicas conseguem manter suas estruturas.

    Para os que estudam os fenômenos econômicos, certamente é uma lição histórica. A monocultura extensiva e predatória (que hoje chamamos simplesmente de "agro") é cruel e cospe os seres humanos do seu interior. Força a especialização, a concentração de renda em grandes grupos, e pouco interesse tem pelas populações. É incompatível com a pequena produção familiar.

    Mas os agricultores resistem buscando alternativas, mostrando que a criatividade pode gerar outras fontes de renda, fora do circuito agro-exportador. Talvez seja uma solução sábia. Talvez por aí voltemos a encontrar a segurança alimentar, a comida com qualidade. Talvez no futuro retomemos o caminho da agropecuária capaz de manter o homem no campo. Num campo mais verde, diga-se de passagem.