• segunda-feira, 11 de junho de 2018 08:13

    A cor dos dias

    Li um dia desses que as pessoas tendem a ser mais tristes no inverno porque a ausência do sol ou a constância de dias cinzentos arrasta os indivíduos à tristeza. Então, talvez isso justifique uma crônica que dribla entre a alegre poética e a melancolia.

    Mas discordo dos estudiosos, eu adoro dias de chuva, dias de garoa, dias cinzentos, e não sou triste. A cor dos dias não pesa na minha alma. Pesa sim a falta de amor ao próximo ou a dor que vai na alma do outro quando a sinto.

    Não é uma crônica sobre o tempo, nem sobre a política que nos traga na podridão desses dias lamacentos. É sobre a vida, sobre as buscas nossas e o quanto nos importamos com o sem importância. Ou sobre como alimentamos nossos pássaros.

    Na semana passada a Dé me chamou para falar de sua amiga que acabara de perder a filha pequena. Que dor! Inimaginável. Tanta que a sentimos em nós, sofremos. Ela colheu uma dor para a vida toda. Eu não saberia o que lhe dizer hoje, apenas que depois da dor ela precisará pintar outras telas.

    É o oposto da alegria que sentiu o Henrique Scalco ao escalar o Everest, e por extensão todos aqueles que o amam e o cercam. Eles tocaram o céu. Eles colheram raios do sol para estampar as paisagens para sempre. E estão alimentados, se quiserem, até o fim dos dias.

    Noutro dia eu chegava de ônibus a Santa Rosa. Lá na rodoviária ouvi a mensagem do Mauri Carlos a anunciar no sistema de som a origem de quem chegava. Que simples, e que mágico aquilo, que encantador, tão profundo para quem está conectado à vida.

    Os governos não escreverão nossas histórias pessoais, eles, no máximo, serão responsáveis por melhorar nossas condições de vida. O resto é com cada um. Nós escreveremos nossas próprias histórias e colocaremos nelas as cores que pudermos e escolhermos. Escolho gostar de dias cinzentos, ciente de que o sol está ali, ainda que invisível.

    Tem gente que há de amar mais os cães e os gatos que as pessoas e outros que irão se juntar ao redor do fogão para torrar amendoim ou comer pipoca com melado entre amigos e amores.

    Ame, que é tudo que te resta, porque quanto nada surtir efeito, somente o amor colorirá os dias. Ame pai, mãe, irmãos, amigos, com o fundo da alma. E seja um pouco cão, ame sem fazer muitas leituras, porque esse é o amor que sabe perdoar.

    Ame. Esse amor colorirá teus dias.

  • sábado, 2 de junho de 2018 11:47

    A volta dos militares ao poder

    Desde o ano passado, quando a candidatura de Bolsonaro à presidência da República ganhou força, há grupos ativos que associam sua figura ao militarismo e que clamam para que os milicos retomem o poder.
    Ainda que sejam, majoritariamente, jovens alinhados à direita e saudosistas envelhecidos, é preciso admitir que produzam ecos em seu movimento, como se viu no alinhamento à paralisação dos caminhoneiros, ao qual os “nacionalistas” se juntaram.
    Não sou favorável a um governo militar, especialmente, pelo cerceamento das liberdades individuais. Porém, se esses grupos têm conseguido milhares de seguidores em todo o país, a ponto de gritar alucinadamente na porta dos quartéis, é preciso, pelo menos, dar-lhes ouvidos.
    Quem pede os milicos de volta ao poder está dizendo o quê? Em tese, está a clamar por um país sério, que seja honesto, que tenha ética na política, que ofereça segurança ao cidadão e esteja livre dos políticos corruptos que nos afundaram nesse mar de lama (claro, que fazem ouvidos moucos à tortura, prisões e outras).
    Tudo isso, que é decente, eu também quero. É o sonho de qualquer cidadão que paga os impostos e se vê achatado dia após dia. Porém, nem todo o caos é problema da democracia. O que está claro a todos os brasileiros é que o modelo republicano atual não serve, porque foi construído para uma classe de privilegiados que governa a seu bel-prazer.
    A violência não nasceu na democracia. Estava aí, mas foi agravada pela ausência do Estado. A corrupção está no brasileiro, desde sempre, porque o jornal francês Le Monde expôs milhares de casos de desvios de recursos públicos durante o regime militar (é, até eles, os milicos). Sem contar as pensões, aquelas.
    Não quero a intervenção militar como forma de governo. Não. Estou muito bem com minha pobre liberdade.
    Porém, confesso que o povo brasileiro perdeu uma grande oportunidade de sacudir esse país. Faltou dar apoio aos caminhoneiros. Era a hora exata para derrubar o governo mais impopular da história.
    Não quero a intervenção, não como figura que fique no trono de governo, mas comemoraria se nesse instante houvesse uma dissolução geral do Congresso e do Senado até o final desse mandato.
    Quem está nas ruas pedindo a volta dos militares ao poder não quer que eles mandem “na ponta do coturno”. Quem está nesse bloco apenas não quer mais ser mandado pelos 513 parlamentares e meia dúzia de senadores que fazem o que querem e riem de nossa miséria e inércia.

     

  • segunda-feira, 28 de maio de 2018 10:49

    O Brasil fervilha para estourar

    Não é sobre a greve dos caminhoneiros, apenas. É bem mais emblemático. Mais profundo e movediço. É sobre a dor do povo.

    Em cinco anos este é o terceiro movimento social de impacto relevante que sacode o Brasil. É como um vulcão que desperta. Ele dá sinais, alguns, antes de irromper em lava arrasadora contra o que encontrar pelo caminho. É a dor do povo pobre em um dos países mais ricos do planeta.

    Primeiro foram os jovens a sairem à rua com exigências simples, como valor menor na passagem de ônibus. Logo a marcha se espalhou como um ato de protesto patriótico contra as benesses da classe política, gente que pedia ética aos governantes que parecem morar em outro Brasil.

    Depois veio o MBL e o seu “Fora Dilma”, liderado pelos caminhoneiros, ali usados pelos políticos que apoiavam o impeachment, a mando do empresariado que queria “salvar o Brasil”. Em cores da Pátria também diziam querer ética.

    O que temos agora é o Temer e aliados provando do próprio veneno: o movimento dos caminhoneiros. Só que este movimento é outro, é verdadeiro, tem a voz do povo do seu lado. E hoje, eles viram o poder que têm, eles sabem que podem mudar a história do País.

    Não é sobre partidos políticos, é sobre a dor do povo. Esse governo quer botar as contas em dia com o suor do povo, cobrando horrores pela gasolina e o gás, de quebra elevando tudo que o pobre consome. Sim, porque rico não consome, compra o que quer.

    Não é sobre governo de A ou B. É sobre não suportar mais as benesses que são criadas por políticos (e alguns grupos) em prol de si mesmos. E isso se aplica ao Judiciário.

    Há muito que escrevo que estão a semear uma revolução no Brasil. Em algum momento esses “desgovernantes” colherão algo imenso, porque o povo se comunica nas redes sociais, esse povo que está quieto, mas sabe perfeitamente quem manipula e rouba, quem joga nas quadrilhas de direita e esquerda que nos assaltam.

    Esse povo está sem esperança! Sem esperança, mas com a alma transbordando. É um vulcão adormecido. Uma hora qualquer ele sacode, brame, expele fumaça, vomita fogo com destruição que não poderá ser contida.

    Eu só espero que os milicos entendam o povo, sejam povo e estejam do lado do povo se o vulcão explodir e forem acionados para conter o desastre.

  • sábado, 28 de abril de 2018 08:57

    O nome carrega o peso em si

    Eu sempre tento entender porque os pais escolhem nomes “assim ou assado” para seus filhos, quanto na verdade, eu mesmo faço escolhas que terei de explicar a eles.

    Vou aceitar a sugestão da “Nice Voice” e escrever uma coluna mais leve, que inclua a experiência de ser pai aos 44. Poderia ir pelo melódico de ninar um toquinho de gente com 2.500 gramas ou dormir em sobressaltos nas madrugadas. Poderia, mas quero propor outras linhas.

    Eu me preocupo com a casa, o trabalho, a grana para as contas, o futuro, sim, como todo pai. Eu e Dé falamos sobre educação, valores, obrigações. E já estabelecemos um não ao consumismo e um sim ao tempo, ao brincar, ao sermos pai e mãe.

    Na outra janela do tempo me angustia esse país caótico, violento, corrompido de alto a baixo, devastado por camadas de imoralidade em todas as áreas. O mundo talvez sempre tenha sido cruel assim, porém, sem a internet nos parecia que nossas utopias poderiam mudá-lo. Não podem. Podemos construir ilhas.

    Entre esperanças simples, como caminhar pelas matas com o pequeno ou me banhar na sanga, e angústias de um país sem rumo, teço minhas mirabolâncias.

    Eu penso muito no que posso oferecer ao meu filho, e nada está relacionado à matéria. Ele estudará em escola pública, terá animais de estimação, pai para jogar bola e mãe para contar histórias. Quero oferecer a ele um abraço e que ele entenda que abraçar os outros não “passa” doença, pelo contrário: cura algumas.

    Quero oferecer ao Joaquim Abiaru uma visão de mundo bem mais ao estilo do ex-presidente uruguaio “Mujica”, em que as pessoas devem ser as mesmas em todas as circunstâncias, com ou sem dinheiro, com ou sem poder. Quero que meu filho compreenda que o humano em nós não cabe em nenhuma máquina ou tecnologia.

    Meu filho tem nome bíblico para que entenda a importância da fé e da religiosidade, para que compreenda o que vem a ser o amor que o Cristo ensinou. Joaquim há de falar do amor com a facilidade que os imbecis falam de armas e guerras.

    Meu filho tem nome de cacique guarani missioneiro para que pesquise e saiba sobre suas origens, respeite o sangue que corre nas veias abertas do chão e aprenda que somos todos iguais. Espero que faça dardos e flechas de versos para contra-atacar ignorâncias.

    É o peso do nome que se carrega. O meu nome sei o que diz. A Dé é abelha. A Thaíssa é Juçara (a filha mais velha) e ainda há de vir outro - ou outra - por adoção. Os nomes são impressões que viram marcas, e até escudos, para que possamos enfrentar as lutas que a vida põe no caminho.

    Em mundo sem certeza alguma, ainda precisamos ter certeza de quem somos, de onde viemos e com quais armas lutaremos.