Coluna Respaldos, de Clairto Martin
Há quem fantasie com cadeiras de dentista. Eu não! Credo! Eu evito ir ao dentista, e por razões que nem mesmo sei ao certo. Evito até aquele dia em que a dor força o inadiável compromisso: ir até a moça (ou moço) do avental branco, suas seringas e a cadeira.
Percebam que um dentista faz o que é preciso para resolver os problemas que encontra na boca, mas faz também o que determina o paciente: primeiro restaure aquele, depois enxerte esse e deixa aquele pro fim da fila. Um homem de poder também!
O que isso tem a ver com o Orlando prefeito? Nada. Ou tudo. Ele pode não ter fantasiado com a cadeira, mas assim que se dirigiu a ela, sabia que muitas das decisões cabiam exclusivamente a ele.
Por ora, o prefeito até pode dizer “vou começar com este reparo, limpar aquele, polir este”, mas chega uma hora em que vai precisar fazer o tratamento de canal.
Noutro dia, enquanto estava em uma dessas sessões “leves” na cadeira da dentista, ocorreu-me que a minha posição era a mesma do prefeito. Explico melhor. Tenho um dente, daqueles “cuiúdos” para abrir, retirar a velha obturação e pôr outra. Já na consulta, a dentista, após o raio X, avisou: provavelmente vai requerer tratamento de canal! Ai-i-ai! Doeu só em ouvir a frase.
Doeu porque me submeti a dois tratamentos de canal há poucas semanas. Dói só de lembrar! Quando a dentista mencionou a possibilidade de mais um destes, passei a protelar. No Natal e fim do ano não! Depois das férias faço este! E vou levando na conversa. Enquanto isso, a meu pedido, ela faz a limpeza e restaura aqueles menos trabalhosos – ou menos doloridos.
O Orlando já fez uma série de avanços, aqueles que o dentista classificaria como restauros menores, embora todos sejam extremamente necessários. Começou o prolongamento das Avenidas América e Bráulio de Oliveira, começou a obra do Distrito Moveleiro, começa a construir vários postos de saúde neste mês, tem prevista ampliação da E.M.Paul Harris, há um sem número de casas populares em construção, etc.
Na cadeira do dentista, o prefeito até pode protelar mais um pouco um dente que é quase dois: se vai ou não concorrer a um segundo mandato e com quem o PT estará alinhado nas eleições.
Mas há anúncios que não poderá protelar, como o programa de financiamento do recapeamento e novos asfaltos, o ProTransporte. Sem ele, sem esses recursos, o caminho à reeleição fica mais difícil. São 30 mil motoristas, por via de consequência são 30 mil votos (sem contar com eventuais caronas), ou seja, o asfalto é o dente cariado do Orlando. Se ele não fechar o buraco, só tende a doer mais. E não tem paliativo, é tratamento de canal ou nada.
E tem o Plano de Mobilidade Urbana que faz parte deste mesmo pacote, que eu classificaria como o “dente ao lado”.