Uma boca de lobo também é um casamento. Uau!!! É sério isso.
Na esquina da rua onde moro, elas (as bocas de lobo, claro) sempre estão entupidas. Há dias em que o problema é minimizado, quando os homens mágicos passaram por lá e parece que resolveram tudo... É uma maquiagem, um sorriso desbotado em uma união conjugal já desgastada.
Basta vir a primeira chuvinha mais forte e “tome água” dentro dos terrenos e casas. No começo era um gritedo na vizinhança: um tira a moto da rua, outro remove um móvel, outro corre com uma enxada abrir vala, outro vai lá tentar desentupir a dita cuja e seja literalmente o que Deus quiser.
A boca de lobo, em si, não diz nada. Mas a presença dela, diz. É como uma aliança na mão esquerda. Bem planejada e construída, ela é um alívio, consegue suportar as maiores chuvas sem estardalhaço. Neste caso, um pouquinho de cuidado, um carinho básico constante, e ela deixa todo mundo feliz. Dá para classificar como uma maravilha, um primor de invenção.
Já a boca de lobo entupida é um fiasco, um eterno dilema. Boca de lobo fechada pelo lixo berra. Se não berra ela, berra quem precisa dela. Não precisa ser muito inteligente para captar os sinais do desleixo, porque ela denuncia o abandono, ela pede manutenção e, sempre, transborda para avisar que algo não está bem. É um casamento, uma mulher que deixa claro precisar do afago mínimo. Ou isso, ou transborda.
Boca de lobo é um casamento perfeito com a rua e a natureza. Boca de lobo precisa ser um casamento perfeitamente planejado ou ela irá inundar a vizinhança, como se precisasse dizer que é maior que uma casa, que poder romper todas as barreiras e causar muitos estragos. Boca de lobo sempre está à vista de todo mundo, a requerer um cuidado todo especial, muito, mas muito antes de vir a chuva forte.
A boca de logo entupida é incômodo na certa. Começa com simples reclamações, que viram queixas seguidas, que viram pendengas, e acabam por se tornar ações judiciais. Alguém vai perder, alguém vai sentir, ou pagar o dano, argumentar ao juiz que não é bem assim, que o buraco é mais embaixo e que a culpa é do outro.
É a boca de lobo entupida (um casamento transbordando) que faz a gente sair de casa com o sapato molhado e passar o dia com frio nos pés. Quando a água fecha a frente da casa, faz vir à tona o xingamento que deveria ter morrido no vazio e ou nos impede de sair com o riso estampado na face.
Não é preciso esperar chover para olhar com carinho para a frente da casa.