Clairto Martin
Começa assim: presente no dia dos Namorados, no Dia da Mulher, nas datas especiais do relacionamento...
Em cada momento desses, há um compra, um gasto financeiro, um investimento em presente, ao qual subentende-se, ao mesmo tempo, investimento na relação afetuosa. Ai, ai... que engano. Claro, não queremos negociar sentimentos quando presenteamos, queremos o sorriso no rosto, uma palavra confortante. Mas é sim um capitalismo do coração, uma certa forma de comprar afeto.
Repare só no que estamos vendo todo dia: pega bem dar um presente legal a alguém, mas pega mal um filho barbado beijar a face do pai em público (fala sério!). É uma questão de preconceito, mas também de capitalismo, porque se não sabemos nos expressar afetuosamente, temos sempre o presente para impressionar mais profundamente.
Na verdade, o comércio, as agências de marketing, a sociedade consumista/capitalista instituiu um modelo fundamentado no ter, na posse. Imagina uma Dia dos Namorados sem presente... é o fim do mundo. E é assim que dá-se a educação atual, familiar e escolar, que nos faz pôr a mão no bolso a cada poucos dias... e que cada vez mais se afasta da educação para o amor.
É aí que pretendo chegar, tecendo uma analogia com relação ao casamento. Estamos sendo educados culturalmente para a liberdade (o que é bom) mas também para o etéreo, o passageiro. Estou no segundo casamento, como inúmeros dos meus amigos, e não passo uma semana sem ter notícia de conhecidos que não vivem mais sob o mesmo teto. Fruto do “não deu certo, separa!”.
Não há insistência em fazer dar certo, porque todos têm mais o que fazer, coisas mais urgentes e importantes que cuidar de um casamento ou do outro, ou fazer uma relação durar. Nessa ideia vaga de que cada um sabe cuidar de si, tudo é mais importante que a união afetuosa.
Ora, estamos educando para o mercado de trabalho, para o sucesso profissional, e quase nunca para o amor. E quando falo de amor, falo de amor fraternal também. Na verdade, há quase que uma educação para o divórcio, quando deveria ser justamente o oposto. Os contratos de casamento regem até com quem fica o cachorro em caso de divórcio. Separar hoje é moderno e fácil.
Seria hipocrisia minha uma postura contra o divórcio, mas seria igualmente hipocrisia ir contra meus princípios. Acredito no resultdado do educar para o amor, para a paciência, para a construção, para a beleza das coisas simples. Quando educamos para o divórcio estamos apostando que vai dar errado, daí que ninguém se surpreende quando um barco afunda.
Não há erro algum em presentear, mas é preciso cuidar para que com o passar do tempo, não fique o hábito do presente, uma repetição, e muitas vezes, aquela brasa de angico que mantinha a sala aquecida, já era.
Eu adoro o presente, mas também adoro o café na cama, o bilhete na geladeira, a brincadeira sapeca e até os ranços, sim, os ranços... porque todo casamento os têm.