Da coluna, Respaldos, de Clairto Martin.
O judiciário às vezes escancara a nossa hipocrisia, traz ao lume poeiras arrastadas para baixo do tapete. Novas e recentes decisões vêm sem o moralismo de antes, amparadas em abertura social e em aplicar equidade, mesmo que muitas vezes nos soe um tanto estranho.
E aí, muitas vezes, nestas condenações ou absolvições, o espelho não mente. É nessa hora que percebemos que a sociedade não é tão plana como a vemos, nem nós, seres humanos, apenas isso: humanos.
Já vimos juízes autorizarem casais formados por pessoas do mesmo sexo adotarem filhos. Já vimos gays ganharem o direito a receber a pensão. Dias atrás uma esposa viu-se obrigada a partilhar o seguro de vida do finado com duas amantes fixas que o dito mantinha de forma fixa, configurando união estável. Não é uma questão de dizer o que penso, mas como a lei vem sendo interpretada e exibindo a realidade que não está aparente aos nossos olhos.
Um caso que atraiu minha leitura há duas semanas era mais ou menos assim: um casal hetero, de 40 e poucos anos, foi a uma casa de espetáculos e conheceu uma jovem. Paixão coletiva à primeira transa, os três foram viver na mesma casa, com direito a pensão fixa e faculdade paga. O problema é que a filha do casal também se apaixonou pela moça e... Feita desavença a “invasora” foi mandada embora. Ingressou na Justiça exigindo os direitos relativos aos anos de união com o casal. E ganhou.
***
Tirando a máscara da hipocrisia, nós somos obrigados a admitir que (especialmente os homens) amantes fixos fazem parte da história no dito período monogâmico. Não é de hoje, achemos nós correto ou não. Eu mesmo sei de pelo menos dois casos em Santa Rosa de homens com duas famílias, filhos com duas esposas (assumidas). Também soube de homem com mais famílias constituídas, geralmente em cidades diferentes. Seria crime, se fosse de papel passado. Mas é por baixo dos panos. E morrendo um, vem o pó à tona.
***
Quando penso que já ouvi todas as histórias desse cordel, sempre surge mais uma. O Antônio de Paula, o político conhecido de todos, entregou-me originais de um livro que pretende editar. Ali narra a história de conhecido seu que trocou a esposa com um amigo. Assim mesmo. Dois homens esfastiados com as mulheres resolveram fazer um “brique” ao estilo “me dá a tua com as crias, mas mais bonita, e leva a minha que já é de mais idade”. Tudo sacramentado, fizeram a troca.
Ah, e foi aqui mesmo, nesta terra Santa. Claro que já faz um tanto de anos. Essa história deve estar no livro, se ele publicar o material que é todo pitoresco.
***
Mudamos? Pouco, digo. Modernizaram-se algumas práticas, mudaram de nome. Claro que há um novo modelo social, novos olhares, mas também é óbvio que muitas situações estão mais visíveis, escancaradas. Outras, somente vêm à tona nestas horas derradeiras. Mas não podemos deixar de ver que a Justiça não vê com olhos moralistas, e aplica uma nova equação.