Já fui a Wounded Knee, em Dakota do Sul, nos Estados Unidos, para ver a curva do rio onde foi enterrado o coração do índio Cavalo Louco. Na semana passada, fui a Porto Mauá e vi a linda curva do rio Uruguai.
Porto Mauá fica na microrregião de Santa Rosa. É um lugar lindo que deverá desaparecer com a construção da barragem Panambi, assim como o Salto do Yucumã desaparecerá com a barragem do Roncador. Tudo por mais energia elétrica. A beleza feita pela natureza precisa ser destruída pelo homem em prol das suas necessidades artificiais e sempre mais devastadoras.
Eu fui a Santa Rosa participar da Feira do Livro. Conheci gente especial, o ótimo poeta Roque, o excelente violonista Cristiano, reencontrei o Larry, agitador cultural que toca o projeto Resistência, e bati papo com o Magnus, presidente da Ases, a associação local de escritores, organizador da Feira do Livro de 2011 e, durante a semana, militante do PC do B, estudante e diretor-geral de cemitérios. Uma profissão literária.
Magnus me contou que o mais difícil é evitar a privatização dos cemitérios por gente que deseja comprar prematuramente um lugar, à frente, com vista para a rua, a fim de construir um grandioso mausoléu.
O seu escritório de trabalho fica no antigo necrotério da cidade. Viajar é conhecer pessoas e suas histórias. O dr. Fachin, um otorrino de ótimo gosto musical - ouve Buena Vista Social Club enquanto dirige -, apaixonado por ciclismo, levou-nos para um passeio pela colônia. Junto com ele estava o Juca, um jovem caçador de imagens para documentários.
Fomos ver a pacata vida rural de Candeia. Depois, seguimos por um estrada de chão para a cidade de Tuparendi, onde, durante dez minutos, sentados na praça, vimos, no sábado, a vida fluir deliciosa e vagorosamente.
É esse tipo de coisa que eu amo fazer. Poucos dias antes, fui patrono da Feira do Livro de Carlos Barbosa, o segundo melhor município em distribuição de renda. Na terra de Carlos Tramontina, cuja empresa é o motor da cidade, o prefeito Fernando Xavier da Silva reina soberano. Também pudera, até o transporte para estudantes universitários, seja até Caxias, Bento Gonçalves, Novo Hamburgo, São Leopoldo ou Porto Alegre, é gratuito.
Essas viagens servem para falar de livros e escapar para lugares que ainda exalam uma autenticidade cada vez mais em perigo. Confesso que me imaginei morando em Porto Mauá, vendo a tarde cair com os olhos postados na curva do rio Uruguai, examinando com um binóculo a argentina Alba Posse, passeando algum domingo em Tuparendi e, por que não?, dirigindo os cemitérios locais.
Até tudo isso desaparecer sob as águas da barragem da nova hidrelétrica. Quem sabe vou dirigir os cemitérios de Palomas? E fico lá escrevendo contos borgianos sob o sopro do minuano? Há lugares incrivelmente belos neste Rio Grande do Sul. Quem os salvará de nós?
Quem os protegerá da nossa necessidade sempre maior de progresso? Em Palomas, parece, será possível viver do vento, gerando energia e soltando pandorga. Quem salvará Porto Mauá e a sua curva do rio? Ou qualquer tentativa de salvação será um retrocesso? O editor Luis Gomes postou na hora uma imagem no Facebook. Será essa a única salvação possível?
Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br