Pode ser apenas um filete de água sem grande importância para alguns, mas nesta sociedade que discute cada vez mais o meio ambiente e a sustentabilidade e se apregoa moderna, o Rio Pessegueirinho assume outro papel: ele pode dimensionar como Santa Rosa olha para seus recursos hídricos e a natureza.
Em cinco visitas distintas, quatro delas acompanhadas pelo advogado José Sávio Hermes e noutra oportunidade pelo fotógrafo Luis Paulo Soares, do Jornal Noroeste, fiz um longo trajeto para conhecer os mananciais que cortam o perímetro urbano de Santa Rosa. Fui ver onde nasce o Pessegueirinho, o Lajeado Figueira, a Sanga do Inácio, e outros, em um itinerário prazeroso e surpreendente, de Cruzeiro aos fundos da Auxiliadora. Fui ver a vida onde ela resiste à ação do homem e vibrei com as vitórias da natureza em muitos pontos.
O farto material deve estar em uma publicação subsidiada pelo Fundo de Cultura, através do Projeto Mapa Hídrico-Poético, de Sávio Hermes. Um livro denominado Expedições acompanhará o mapa, com dezenas de fotos e observações coletadas nestas cinco pequenas viagens ao coração verde da cidade. Fiquei maravilhado com o desconhecido, com as cachoeiras na Sulina e na Vila Kerber, e surpreso por encontrar filetes de água, pequenos arroios, como nas vilas Balneária e Silva.
Mas o Pessegueirinho merece um capítulo todo à parte. Sobre ele estão 14 pontes, muitas delas novas, construídas pela atual administração. Há áreas de mata nativa conservadas em seu entorno, como no Quartel e na Oliveira. Há áreas de reflorestamento de margem como na APP entre a Flores e a Beatriz, e na Oliveira, no terreno divisório do IFET Farroupilha. Há também invasões do perímetro verde na Flores, na Oliveira e em todo o centro.
E há muito dano ao rio. Não se consegue precisar com total certeza de onde provém todo o lixo e a poluição, mas é visível, nauseante, principalmente a partir da Vila Aliança/Avenida Tuparendi. O Pessegueirinho não pede socorro porque não fala, do contrário poderiam ser ouvidos seus gritos. O cheiro do qual os moradores ribeiros muito se queixam é impressionante nas imediações da Fundação de Saúde, Vila Jardim Petrópolis e Sulina. Mas não apenas isso, é visível a poluição que leva à exalação fétida.
Logo abaixo da ponte de acesso à Sulina há uma cachoeira, que deveria ser ponto turístico da comunidade. Ali se vê um cenário deprimente, o pior que constatei nas visitas. Em duas oportunidades estive lá e a paisagem era a mesma. A água é escura, azul-marinho com musgo, espumosa, de um cheiro impressionante. Na margem do rio, ao lado da cascata, ao meio-dia de uma sexta-feira, era tal o odor que se tornava impossível permanecer ali. Não bastasse isso, havia dezenas de litrões de refrigerantes no leito do Pessegueirinho.
Mais abaixo essa água é tão podre que não consegue se juntar com a água mais limpa do Pessegueirão quando os dois rios se encontram, em uma área que fica aos fundos da Vila Sulina, a poucos metros da ponte na Rua Uruguaiana. O Pessegueiro chega à Santa Rosa na sede do Clube Concórdia (Caça e Pesca), passa nas vilas Ouro Verde, Bela Vista, Planalto, Barro Preto, Piekala e cruza a Avenida Borges de Medeiros. Até os últimos metros antes de receber a água do Pessegueirinho, ainda há meninos que se banham e pescam lambaris e tilápias, em um leito razoavelmente limpo.
Onde os dois se fundem a cena é grotesca. A água clara do Pessegueiro contra a escura e fétida do Pessegueirinho. Essas duas massas totalmente diferentes, seguem lado a lado por vários metros abaixo, sem união de líquidos, tão viscosa é a que vem cortando a cidade. É muita podridão! Quem a gera? Quem joga os dejetos no rio? Que providências o município, o Judiciário, os moradores e a sociedade como um todo podem adotar para mudar a realidade? É preciso abrir um debate urgente a respeito deste tema. Primeiro porque os moradores ribeiros não suportam mais o problema, mesmo que façam parte dele como agentes, e também porque é inaceitável que o progresso esteja acima da própria vida.
Por Clairto Martin