Capoeirista que respeita a arte, Ibirá Müller Hufnagel ama o que faz, é humilde, educado e dedicado.
Educador Físico, atua em diversos locais e projetos sociais, como a CASF - Centro Assistencial Sagrada Família, Escola Educação Infantil Tia Mitti, Prefeitura de Tuparendi - CRAS e COMUDICA, Programa União Faz a Vida -Tucunduva, Prefeitura de São Martinho - CRAS, Escolas Municipais de Santa Rosa - Convênios com Prefeitura e Mais Educação, Projeto Capoeira e Cidadania - parceria Grupo Capoerê e Etnia Afro.
Este libriano é casado com Teresinha Escher, gosta de curtir os momentos simples da vida, como jogar capoeira, futebol, vôlei, correr, curtir músicas nativistas e samba de bamba, chimarrão, café e não precisar deixar de ser quem sou para agradar alguém.
A VOICE entrevistou Ibirá, gente como a gente, e afirma “A Roda de Capoeira é um mundo em miniatura, ali tem de tudo caímos e levantamos, estendemos a mão ao que esta caído, compreendemos que não somos e nem podemos ser sós, que precisamos estar em contato com nossos irmãos”.
Qual a história do Ibirá?
Nasci em Santo Ângelo e já trabalhei como ajudante de depósito, vendedor, analista de crédito, cobrador lojista, funcionário público federal dos Correios, professor de academia – musculação, dança, aeróbica. Sou de família humilde e morei em várias cidades, em vários locais diferentes. De cada local, de cada região, guardei um pouco dos costumes, das peculiaridades e assim formei e moldei minha forma de ser e de viver.
Viajei um pouco para conhecer meu país, sua cultura, seus costumes...
Já exerci muitas atividades profissionais, mas me encontro no esporte, na educação para a cidadania.
Moro em Santa Rosa pela segunda vez, agora há 13 anos, e adotei esta cidade para construir meu trabalho, participar de sua vida econômica, social e cultural.
Quando iniciaste a treinar capoeira?
Como já disse, viajei um pouco por aí, morei em muitos lugares e numa dessas cidades por onde passei, no caso São Borja, trabalhei numa academia. Lá exerci a profissão de professor de aeróbica, no ano de 1996, época em que os ritmos baianos dominavam a mídia – O AXÉ. Nas aulas usava tais ritmos, misturando alguns movimentos e ginga de capoeira. Na verdade não conhecia tal prática e nesta ocasião conheci a aluna Patrícia Mosca baiana de nascimento, que praticava capoeira e se propôs a me ensinar o que sabia em troca de aulas de dança. Foi assim que iniciei e, posteriormente, fui buscar aperfeiçoamento com outros mestres em diversos locais do Brasil.
Qual é a sua relação com este esporte e dança?
Desde cedo fui ligado ao esporte, atletismo, futsal, vôlei (apesar do tamanho), trabalhei também com dança, principalmente como coreógrafo por algum tempo. Hoje minha relação é visceral, não posso mais imaginar minha jornada pelo mundo, longe desta cultura que passou a fazer parte do meu dia-a-dia, passou a ser minha profissão, minha filosofia de vida, que me trouxe o que tenho de melhor na vida, meus amigos e a mulher que amo.
Onde e quais são as atividades que realiza com a capoeira?
Hoje atuo em um leque de atividades, com alguns alunos, que hoje são professores e monitores de capoeira. Realizamos várias atividades paralelas, como aulas e oficinas de capoeira, fabricação de instrumentos, confecção de pratos típicos (acarajé, vatapá..) e palestras como: Capoeira e Cultura Afro-brasileira, Dia da Consciência Negra, mas tendo sempre por mote principal a capoeira. Mantemos junto à Casa Afro, no Parque de Exposições, o Projeto Capoeira e Cidadania, aos sábados à tarde, com o objetivo de oferecer aulas de capoeira e cultura afro-brasileira a quem se interessar.
Sempre está envolvido com algumas atividades sociais. Onde é realizada e como funciona?
O trabalho que realizo com a capoeira tem direcionamento com a questão social, a inclusão, a formação do cidadão, a busca pela inserção no mercado de trabalho.
Os projetos nos quais estão vinculados a esta visão da inclusão social, então a capoeira entra como ”pano de fundo” em todo este processo. Atualmente estamos com um projeto mantido pelo Grupo Capoerê, em parceria com a Etnia Afro, já citado, e que neste primeiro momento visa atender crianças, jovens e adultos. Este auxilia na sua formação, mas que tem por objetivo ampliar sua atuação, sendo também um projeto capaz de gerar renda, tendo maior atuação na comunidade.
Para você, o que é ser mestre de capoeira e o que isso representa?
Ser mestre de capoeira é uma responsabilidade social, pois não se adquire tal título em bancos escolares ou acadêmicos. A condição de mestre é o reconhecimento da comunidade onde atuamos, que nos vê como tal; esse reconhecimento não possui diploma, é uma conquista da vida. Há também que se alcançar a condição de mestre no meio em que praticamos nossa arte, ser reconhecido pelos alunos, por outros professores e mestres de capoeira, como alguém capaz de entender e levar adiante esta arte popular, e finalmente deve-se ter o reconhecimento ante os órgãos de classe, confederações estaduais e Confederação Nacional de Capoeira.
O que precisa ter para ser um capoeirista?
Precisa querer, precisa querer ser você em movimento. A capoeira oferece várias formas de participação, não só pelo movimento. Você pode praticar capoeira pela musicalidade, pela arte em si, pela filosofia que ela traz, resumindo, não há obstáculos, nem barreiras que impeçam alguém de ser capoeirista.
Roda de capoeira é uma brincadeira, um momento de lazer, um momento de prazer, um momento de ludicidade, de felicidade, alegria e congraçamento entre as pessoas num intercâmbio cultural e social, que faz bem e dá prazer. Como avalias esta afirmação?
O mundo em que vivemos é grande e pequeno, dependendo da forma que o encararmos. A Roda de Capoeira é um mundo em miniatura, ali tem de tudo, caímos e levantamos, estendemos a mão ao que está caído, compreendemos que não somos e nem podemos ser sós, que precisamos estar em contato com nossos irmãos. Dependemos do mundo que nos cerca, na Roda de Capoeira não há o embate do Um contra o Outro, e sim do Um com o Outro. Roda de Capoeira é lazer, esporte, brincadeira, luta, irmandade, simulação e dissimulação das situações da vida.
A humildade é a maior lição que podemos tirar junto à atividade de capoeira?
Se compreendermos a própria origem da capoeira, sua criação como forma de combate à escravidão, sua dissimulação enquanto dança, entenderemos que a humildade é condição prioritária do “Ser Capoeira e Ser Capoeirista”. Enquanto não assimilarmos isto estaremos nos enganando a nós mesmos, o que é o pior dos enganos.
Quem pratica capoeira, agrega que resultados na sua vida?
Agrega valias físicas como agilidade, flexibilidade, força, equilíbrio... Aprende a se conhecer, conhecer suas reações, sua capacidade de sair de situações adversas, conhecer e vencer (quando possível) seus pontos fracos. Aprende que ser forte ou fraco são condições temporárias e perfeitamente mutáveis de acordo com sua própria determinação.
Como as pessoas podem praticar capoeira? Local, como funciona e atividades?
Na Casa Afro, que fica no Parque de Exposições, sábados à tarde, a partir das 16 h. A partir do mês de fevereiro estaremos na academia também.
Você é movido a quê?
A adrenalina.
Qual é o seu melhor talento?
Considero que falar de meus talentos ou qualidades não cabe a mim, corro o risco da falsa modéstia ou do exagero. Mas creio que a versatilidade e paciência façam parte de meu ser, dito por quem convive comigo.
Qual a maior invenção do homem?
O fogo.
Qual é o melhor lugar do mundo?
Onde posso ser feliz.
Qual a ideia de um dia perfeito?
Acordar cedo, tomar um chimarrão com quem amo, assar uma carne curtindo uma música nativista e ir para uma roda de capoeira.
Qual a lembrança mais remota de sua infância?
Ao acordar cedinho ver minha mãe sair para o trabalho no hospital de Santo Ângelo.
Frase preferida:
O mundo de Deus é grande, mas cabe numa mão fechada. O pouco com Deus é Muito, mas o muito sem Deus é Nada.
Uma mensagem para nossa comunidade:
A cultura e a educação são os melhores meios à transformação social. Temos de compreender e praticar esta ideia, dar espaço às novas iniciativas, remover nossos preconceitos, saber que quando algo novo culturalmente falando, chega e se instala, não quer dizer que temos de abandonar nossas tradições, ou que estas serão removidas ou substituídas, quer dizer apenas que estamos evoluindo, crescendo com o novo.