Guerreira e cheia de vontade, Cleria Bitencorte Meller é uma estudiosa e defensora do nosso meio ambiente e diz que precisamos nos orientar e plantar um presente que garanta a subsistência das novas gerações, em um planeta que pede socorro e aquece a cada dia. Melhor que plantar árvores, despoluir rios, proteger animais, é semear a consciência que garanta a vida e respeite as fronteiras da natureza.
Cleria é graduada em Biologia, especialista em Preservação Ambiental, mestra em Educação nas Ciências e Meio Ambiente e doutora em Educação com ênfase em Educação Ambiental. Desenvolve suas atividades de ensino, pesquisa e extensão no Instituto Federal Farroupilha, Campus Santa Rosa. Atualmente é Diretora de Extensão e Pesquisa.
Casada com Adir Palharim Meller, tem dois filhos: Andrea Cintia Bitencorte Meller Dal Forno e Maximiliano Thiago Bitencorte Meller, os netos Gustavo Gabriel, Ezequiel, Mariana e Arthur e o genro Marcos Dal Forno e a nora Claudia Costa. Esta canceriana ama a VIDA e adora festas, principalmente junto da família. Ela afirma que temos muito a aprender ainda sobre sustentabilidade e as ações sobre arborização, mobilidade, energia, urbanização, lixo etc... Precisamos urgentemente tornar nossas ações hábitos diários, pois o próximo passo será maior e mais complexo. A importância deste tema vai além da questão biológica, que envolve aspectos econômicos, sociais, culturais..., é a interligação de todos estes aspectos da vida do homem aqui na terra, que têm que ser vista como elemento fundamental de sobrevivência.
A VOICE conversou com Cleria, que nos ajuda a pensar e tomar decisões para uma educação ecológica permanente.
Qual a história da Cleria?
Falar de minha história é remexer no baú de minhas memórias. Devo dizer que não acho nada fácil contar a própria história, principalmente quando o passado já vai mais distante. Aqui e agora, vale lembrar o grande escritor, romancista e contista Guimarães Rosa (2001) quando diz que contar nossa história é muito dificultoso, não pelos anos que já passaram, mas pela astúcia que têm certas coisas de se fazer balancê, de se remexerem nos lugares que muitas vezes não gostamos de lembrar. Tem horas antigas que ficam muito mais perto da gente, enquanto que há outras de recente data que se afastam.
Minha história de vida tem a educação como nicho e hábitat intelectual; nas últimas décadas a dimensão ambiental tem sido referência nas minhas ações cotidianas. Esta trajetória tem marcas de diferentes momentos históricos que vivi desde os primeiros passos de minha escolarização. Todos esses momentos, com características e representações de mundo, contribuíram e contribuem no meu ser professora pesquisadora.
Durante minha infância e parte de minha adolescência morei no meio rural, tendo um contato quase direto com ecossistemas agrícolas, aquáticos e florestais. Talvez venha daí a minha preocupação com a qualidade da água, do ar e do solo. Evoco tempos em que a água era abundante e límpida. Bebíamos água de uma fonte durante muitos anos; esta era protegida com vegetação nativa e, possivelmente, a água não era poluída.
Ao longo desse percurso, convivi com muitas realidades e enfrentei variados desafios. Fui professora de classes multisseriadas no meio rural, supervisora do ensino municipal e de escola particular, coordenadora pedagógica de escola pública, também fui secretária municipal de Educação em Independência, por uma década, e também ministrei aulas e supervisionei estágios do Curso Normal no Colégio D. Hermeto de Três de Maio. Por mais de vinte anos trabalhei na UNIJUÍ, com ensino, pesquisa e extensão no Departamento de Biologia e Química. Hoje sou professora pesquisadora do Instituto Federal Farroupilha, Campus Santa Rosa. Essas funções desempenhadas indicam que ocupei tempos, lugares e posições diferentes na minha trajetória deste quase meio século pela educação.
O contexto vivido como professora de Ciências Naturais e de Biologia tem me contribuído para uma leitura da realidade com lentes diferentes. Isto significa que o conhecimento dos fenômenos da vida e de suas interações tem ajudado a me constituir educadora ambiental, com todas as limitações impostas pelo atual modelo de desenvolvimento.
Ressalto que, além das atividades de ensino e pesquisa, também atuo na extensão, principalmente em Educação Ambiental, além de meu envolvimento no Comitê da Bacia Hidrográfica Turvo, Santa Rosa e Santo Cristo há quase dez anos.
Qual é sua satisfação em trabalhar e estudar questões ambientais?
É prazeroso trabalhar com questões ambientais. Na verdade, pela emergência de somar forças para o desenvolvimento de ações que contribuam para cuidar do Planeta, pensando nas gerações presentes e futuras, que têm direito a um ambiente sadio. Apesar da importância, muitas vezes fico frustrada diante de tantas mazelas ambientais que ocorrem próximas ou longe de nós. Vale ressaltar que levantar a bandeira da Educação Ambiental vai muito além do que fazer movimentos em defesa do verde pelo verde, protestos contra a matança de animais etc. Essas questões são relevantes e precisam ser discutidas e trabalhadas, porém a Educação Ambiental que começa a tomar forma neste início de século é muito mais abrangente. Abrange as dimensões histórica, socioeconômica, cultural, ecológica, ética, científica e tecnológica - engloba toda a atividade humana - e o seu equacionamento exige tomada de consciência por parte de crianças, jovens e adultos no sentido de desenvolver uma nova relação com o único PLANETA VIVO.
Quais são suas atividades e responsabilidades profissionais no Instituto Farroupilha de Santa Rosa?
Sou professora no Curso Técnico em Meio Ambiente Subsequente ao Ensino Médio. A maior responsabilidade que tenho, em primeiro lugar, é dar bom exemplo e contribuir com os jovens e adultos para o desenvolvimento de novos valores para superação do atropocentrismo estreito, responsável pelos danos ambientais. Busco, no cotidiano da sala de aula, articular as três dimensões da educação: ensino, pesquisa e extensão, colocando a pesquisa da realidade socioambiental como centro de tudo. Por isso, todos os estudantes, em grupos, ou de forma individual desenvolvem um projeto de pesquisa.
Além disso, sou pesquisadora e coordeno um projeto financiado pelo CNPq que tem como título Localização e Restauração das Principais Nascentes do Rio Santo Cristo. Atuam também neste projeto o professor Dr. Gilberto S. Filho, a professora especialista Raquel Canova, bolsistas e profissionais da Universidade Fronteira Sul.
Atualmente, sou Diretora de Extensão e Pesquisa no IFFARROUPILHA, Campus Santa Rosa. Setor que tem como objetivo principal, fomentar o desenvolvimento de ações de pesquisa e de extensão para fortalecer a educação científica e tecnológica, bem como proporcionar uma estreita vinculação ao ensino pela articulação de projetos integrados, privilegiando temas de grande interesse e repercussão social, além de possibilitar a integração com a comunidade, mediante ações interativas que concorram para a transferência e aprimoramento dos benefícios e conquistas auferidos nas atividades de ensino, pesquisa, extensão e ensino.
Como podemos mudar a cultura do desperdício da água?
Não é fácil mudar nossa relação com a água, porque felizmente não convivemos com a carência deste bem vital. Nossa região é rica em mananciais de água e a cidade de Santa Rosa é rica em nascentes e rios, apesar de tão mal cuidadas.
Por ocasião das investigações realizadas, o que se observa é uma usual falta de cuidados com os mananciais de água, traduzida pela ocupação das áreas definidas como de preservação permanente, falta de vegetação ciliar, lançamento de esgotos, lixos, agrotóxicos (embalagens de adubos e outras jogadas próximas e dentro dos leitos), além de outras intervenções que degradam os ecossistemas.
Para mudar essa cultura é preciso um trabalho intenso e contínuo de Educação Ambiental formal e não formal, que comece por cada pessoa e assim disseminar práticas sustentáveis.
“Gestão ambiental deixou de ser modismo, gera lucro e inspira boas práticas”. Como você avalia esta afirmação?
Felizmente está começando a passagem de modismos para a adoção de práticas sustentáveis. Hoje já podem ser evidenciadas boas práticas e estas vão sendo disseminadas, contribuindo assim para uma mudança de paradigma, apesar de que ocorram de forma muito lenta.
Como deve ser as atitudes de um gestor e empreendedor em relação ao meio ambiente?
Uma visão estritamente econômica não leva em consideração os impactos ambientais que agravam o esgotamento dos bens do planeta. Por isso, o bom gestor deve articular o desenvolvimento econômico com as questões ambientais, colocando em prática as leis ambientais, que em nosso país são muito boas.
Que iniciativas ecológicas mais a surpreendem positivamente?
Uso de energias renováveis e experiências da agricultura sem veneno.
O que a surpreende negativamente em nossa região e Estado?
O que me preocupa é o uso contínuo e indiscriminado de agrotóxicos e a falta de cuidados com os corpos hídricos. Nascentes, córregos e rios são depositários de esgotos e efluentes de origem industriais.
Na região, há consumo exagerado de venenos (agrotóxicos) na agricultura, apesar do incentivo de governos para o desenvolvimento da agricultura sustentável (orgânica). A ANVISA tem mostrando dados alarmantes com relação à concentração de agrotóxicos em alimentos, o que é preocupante. Também há pesquisas que apontam que a exposição e consumo de alimentos com altas concentrações de agrotóxicos causam câncer, alergias, depressão, além de outros males. Apesar das evidências dos fatos, continua-se usando agrotóxicos de forma contínua.
Quais são as boas práticas que podemos fazer no nosso dia a dia em relação ao meio ambiente?
Já existem experiências usando energias renováveis, aproveitamento da água da chuva, plantio de árvores nativas, construções sustentáveis, acesso à moradia pelas pessoas carentes, revitalização de nascentes, arroios e rios, redução da quantidade de resíduos em nossas residências, separação do lixo de forma correta, consumo de produtos orgânicos na nossa alimentação, além de tantas outras ações que podemos tomar a iniciativa de fazer.
Na sua experiência em sala de aula, como observa os professores, os alunos e comunidade em relação à prática da Educação Ambiental?
Na região muitos professores desenvolvem projetos significativos de Educação Ambiental. Entretanto, o que se observa é que alguns projetos não têm continuidade e que muitas vezes envolvem com mais intensidade professores da área de Ciências da Natureza. Entretanto, a Educação Ambiental deve perpassar todas as áreas do conhecimento, porque diz respeito à sociedade como um todo e representa uma nova dimensão a ser incorporada ao currículo escolar de forma contínua. Professores, estudantes, enfim, todas as pessoas necessitam desenvolver ações concretas no sentido de mudarem as relações com ambiente. É a busca de uma cidadania concreta em todos os momentos de nossa vida que proporciona o resgate de valores sociais, econômicos, éticos, culturais, etc. tão necessários à própria condição humana.
Assim, a Educação Ambiental emerge como uma possibilidade para articular experiências, promover reflexões sobre a realidade, construir e difundir saberes que contribuam para o desenvolvimento de uma nova visão de mundo. Assim sendo, a preocupação ambiental deixa de ser uma preocupação específica, localizada e difundida por uma minoria para transformar-se em atividades educativas articuladoras de práticas pedagógicas formais e não formais.
Cite algum livro e filme, que nos levem a consciência ambiental?
Um dos livros que vale a pena ler, é o livro, “Do Jardim ao Poder” do saudoso José Lutzenberger, pioneiro dos movimentos ambientais no Brasil. Em 1972, Lutzenberger lançou o manifesto que teve como título “O Bacanal de Esbanjamento”, quando fez duras críticas ao sistema econômico e à sociedade de consumo.Trouxe também a leitura do cultural nas discussões relacionadas ao meio ambiente. Muitos assuntos, que hoje parecem recentes, já eram tratados pelo grande guerreiro. Fritjof Capra é outro autor que tem várias obras: O Ponto Mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente e um filme baseado no livro; Teia da Vida é outro livro de Capra, que apresenta novas e estimulantes perspectivas sobre a natureza da vida num enfoque sistêmico; As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável, além de tantos outros livros do mesmo autor. Outro autor é Enrique Leff, que teoriza sobre a importância da disseminação de saberes ambientais e a sustentabilidade. O autor propõe a substituição da racionalidade técnica pela racionalidade ambiental e necessidade da alfabetização ambiental. Poderia citar outros autores, inclusive meus livros que tratam de questões ambientais, com ênfase em recursos hídricos e Educação Ambiental.
Como aplicar sustentabilidade nas empresas modernas?
Não existem receitas para aplicar a sustentabilidade. O ponto de partida é a percepção de que somos parte do ambiente. Se o ambiente está comprometido, alguém sofrerá com isso, e com certeza, os que mais sofrem são as pessoas mais pobres. Ressalto que para uma empresa alcançar a susentabilidade, em primeiro lugar deve cumprir as leis ambientais. A Constituição Brasileira de 1988, nossa lei maior, dedica um capítulo especial às questões ligadas ao ambiente, determinando que: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e a coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para presentes e futuras gerações” (Art. 225 da Constituição Federal). O parágrafo primeiro, inciso VI, determina ao Poder Público, a incumbência de “promover a educação ambiental em todos os níveis e modalidades de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente”.
O poder público está fazendo seu papel aqui na nossa região?
Nos últimos anos cresceu a preocupação com as questões ambientais pelos poderes públicos, mas precisa evoluir mais. A Política Nacional do Meio Ambiente responsabiliza os gestores públicos a desempenharem papéis relevantes na gestão dos bens da natureza. Entretanto, é necessário a cooperação entre as diferentes esferas do poder público, do setor empresarial e demais segmentos da sociedade.
A imprensa brasileira ainda está aprendendo a trabalhar os temas do meio ambiente. De que forma poderíamos fazer a diferença neste assunto tão importante?
Neste início de século, é que os temas ambientais ganham grande visibilidade, quando a humanidade presencia um acelerado esgotamento dos recursos naturais, num ritmo sem precedentes. Neste contexto, a imprensa tem ocupado um lugar relevante, considerando que os meios de comunicação têm se encarregado de divulgar as grandes catástrofes ambientais, naturais ou aquelas provocadas pelos humanos. Entretanto, é fundamental a interação da imprensa com as instituições de pesquisa, ensino e extensão, o que contribui para qualificar e intensificar as informações.
Qual a maior invenção do homem?
No meu ponto de vista, a maior invenção humana foi a escrita.
Você trabalha com que princípios?
Acima de tudo, busco a competência profissional, que implica na vivência de princípios morais, éticos e a coerência entre discurso e a prática.
Qual o melhor lugar do mundo?
Minha casa, junto com minha família.
Qual a ideia de um dia perfeito?
Eu diria que não existe dia perfeito, mesmo que a gente sinta a sensação de paz interior, do dever cumprido e a felicidade de ter ajudado alguém. O “Dia Perfeito” é balizador e referência para refletirmos sobre as ações realizadas para projetar as futuro. A utopia faz parte da natureza humana.
Qual a lembrança mais remota de sua infância?
Até meus dez anos de idade bebia água de uma fonte natural, não tratada, o que hoje não faço mais.
Frase preferida:
Mais vale as lágrimas de um a derrota, do que a vergonha de não ter lutado para ajudar a promover mudanças.
Uma mensagem para a nossa comunidade:
Cuidar do meio ambiente é cuidar da VIDA. Faça a diferença, seja um(a) educador(a) ambiental.