Qual é a história do Luciano?
Semelhante a todos, com desejos, tropeços e conquistas.
A base do que sou se deve à educação dentro de casa e os princípios que lá me foram passados. A escola de primeiro e segundo graus também teve papel importante na minha vida, não só por me mostrar como eu deveria ser em sociedade, como por me mostrar como a sociedade pode ser desigual e parcial. Na busca por novos horizontes sai de Santa Rosa para estudar oceanografia em Rio Grande, e nos oito anos que ali se passaram, entre graduação, mestrado, intercâmbios e licenciatura ganhei mais do que conhecimento técnico, ganhei experiência de vida. Aos vinte cinco anos resolvi quebrar as correntes do comodismo e fui tentar a sorte em Porto Alegre, entrei para o doutorado da UFRGS em Química Analítica e Ambiental - não finalizado e comecei a atuar no mercado como consultor. Há dois anos me tornei sócio de uma empresa de consultoria ambiental, a Acquaplan Tecnologia e Consultoria Ambiental.
Quais são as principais atividades e serviços da Empresa ACQUAPLAN?
A Acquaplan atua principalmente na área de licenciamento ambiental, diagnóstico e avaliações ambientais tanto na área marinha como continental. A equipe da Acquaplan é multidisciplinar formada por oceanógrafos, engenheiros, biólogos, geógrafos e outros. Recentemente nossa equipe realizou um estudo para a Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul, com o intuito de avaliar a quantidade de agrotóxicos usados no RS e suas relações com o consumo de água e as normas de potabilidade.
Como você vê o papel dos agrotóxicos na sociedade?
Primeiramente, é importante ressaltar alguns aspectos sobre os agrotóxicos. Nas condições atuais de demanda de alimentos o uso de agrotóxicos se faz necessário. A mudança para cultivos mais “saudáveis” será dada de forma gradativa e a responsabilidade por fazer com que o processo acelere e tenha sucesso esta nas mãos do consumidor e do governo, que tem papel de incentivador e fomentador.
Outro fato importante é a relevância dos agrotóxicos no controle de pragas transmissoras de doenças aos humanos, exemplo prático o DDT no combate da malária e do tifo. O uso desse agrotóxico erradicou a doença em diferentes países, salvando a vida de muitas pessoas. Entretanto, pesquisas inadequadas, insuficientes e de fiscalização branda, em alguns países, resultaram no uso descontrolado de princípios ativos, nocivos aos seres humanos. O DDT, banido na década de 70, hoje conhecidamente carcinogênico, altamente persistente e bioacumulativo, mesmo tendo salvado inúmeras vítimas da malária, possivelmente causou a morte de inúmeras outras devido aos efeitos nocivos de sua fórmula.
Os defensivos agrícolas atuais seguem normas específicas de usos e sofrem rigorosos testes antes de terem sua liberação concedida. Entretanto, a evolução das pesquisas científicas pode demonstrar num futuro próximo que os compostos que estamos utilizando hoje são prejudiciais ao seres vivos e não devem mais ser utilizados.
Neste caso, como é a atuação do Estado, do Governo na orientação sobre o uso de agrotóxicos?
Atualmente, a legislação brasileira exige inúmeros testes para liberação de uso de uma nova substância para o controle de pragas e cada vez mais as corporações responsáveis pela fabricação desses defensivos têm aplicado verbas na produção de substâncias menos tóxicas e mais eficientes. Contudo, compostos considerados de baixa toxicidade aos seres humanos, ou a outros organismos, numa década passada podem mudar de categoria devido à evolução do conhecimento e de técnicas analíticas. A problemática do consumo de substâncias tóxicas surge no intervalo de tempo em que ocorre a evolução do conhecimento e a aplicação de medidas para frear o consumo da substância e a fiscalização de uso. Nesse intervalo de tempo, podemos ter uma década de uso de uma substância nociva a nós ou a outra espécie da natureza com consequências desastrosas.
A situação brasileira é agravada por um processo lento e burocrático na mudança de leis de fiscalização e de parâmetros reguladores. Para o Rio Grande do Sul e, especialmente, para a região Noroeste, temos ainda a proximidade de fronteiras internacionais que facilitam o contrabando de defensivos agrícolas proibidos no Brasil e ainda utilizados na Argentina, Paraguai e Uruguai.
E como podemos avaliar a situação da quantidade de agrotóxicos nos alimentos e água no RS?
Alguns produtos apresentam controle de qualidade para consumo, nesses produtos são feitas medições da concentração de determinados ingredientes ativos (agrotóxicos) conforme legislação pertinente. Por exemplo, a água potável é monitorada conforme os padrões da Portaria 518 de 2004 do Ministério da Saúde. Também existe o controle de uso, que monitora o tipo de agrotóxico utilizado em cada cultura.
A quantidade final na mesa do consumidor pode ser maior que a permitida devido ao uso incorreto dos defensivos, e principalmente, pela desatualização de nossa legislação que não monitora as concentrações de inúmeros compostos que vêm sendo utilizados amplamente em nossas lavouras.
Há pesquisas que citam o Brasil como um dos países com o maior consumo de agrotóxico do mundo. O RS, por ser um dos estados com maior produção de grãos, é o Estado que mais consome agrotóxico do Brasil?
Estes estudos estão em constante desenvolvimento e mudam conforme a safra e área plantada, mas acredito que o Rio Grande do Sul seja um dos maiores consumidores de agrotóxicos do país e, a região Noroeste, por ser um polo produtor, deve estar entre as regiões com maior consumo dentro do RS.
Como o consumidor pode identificar ou saber, quais são os alimentos com mais agrotóxicos?
Infelizmente, não temos como visualizar agrotóxicos a olho nu. O importante é conhecer a fonte e o produtor, no caso de frutas e verduras, compre de uma fonte conhecida, em que confia e, se for comprar em um supermercado, compre de uma marca que faça os testes adequados para o consumo e evite alimentos que viajam milhas para chegar à sua casa. A preservação desses alimentos durante o transporte é, em geral, feita com algum tipo defensivo.
Os procedimentos de lavagem, retirada das cascas e folhas externas dos alimentos, ajudam na redução dos resíduos de agrotóxicos. Isso é suficiente?
O procedimento de limpeza dos alimentos para a retirada de agrotóxicos, na teoria não seria necessário, por que, segundo os fabricantes, os compostos se degradam e não ficam mais presentes nos alimentos, mas ainda temos presentes a contaminação bacteriana, que faz da limpeza dos alimentos uma ação indispensável.
Entretanto, para que a degradação dos defensivos aplicados nos alimentos ocorra é necessário um período, que varia conforme o tipo do agrotóxico. Esse período nem sempre é respeitado pelo produtor e pelo varejista e o alimento é vendido pouco tempo após a aplicação do defensivo. Fato comum em verduras, por isso é sim aconselhável que se lave os alimentos com o intuito de também diminuir a concentração de agrotóxicos.
Quais os danos que os agrotóxicos podem causar em nosso organismo?
Muitos estudos comprovam que alguns compostos podem causar inúmeras deficiências no sistema hormonal, renal, nervoso assim como o desenvolvimento de câncer e possibilidade de abortos e mudanças teratogênicas. Existem ainda estudos sobre o aumento do índice de depressão em pessoas expostas à constante contaminação por compostos agrotóxicos.
Os produtos orgânicos são a solução deste problema?
Solução é uma palavra que remete ao momento, já que estamos em constante evolução. Talvez sim, nesse momento os orgânicos sejam a solução. A não utilização de agrotóxicos torna o crescimento e maturamento dos alimentos mais natural e traz inclusive mais sabor aos alimentos, essa é uma opinião pessoal.
No entanto, por outro lado, existem estudos que mostram que nestes alimentos pode ocorrer o aumento de organismos patogênicos e que devido à fiscalização branda da presença desses organismos pelo governo nos produtos para consumo, o risco de contaminação aumenta. Isso exige do consumidor maior cuidado na limpeza dos alimentos orgânicos, mas que no final resulta num alimento mais saudável do que aquele produzido com defensivos.
A ANVISA, mostrando a quantidade de agrotóxicos nos alimentos nas suas pesquisas, só nos alerta ou somos preservados com estes estudos?
Com certeza, a intenção é de preservação, esta é a forma de o Governo controlar o que estamos ingerindo. Para o Estado o interessante são pessoas saudáveis que possam trabalhar e produzir e não pessoas doentes, que usam o dinheiro do Governo em instituições de saúde. A ineficiência do Governo gira em torno da lentidão na atualização de seus métodos/padrões e da fiscalização dos produtos.
Quais são os efeitos dos agrotóxicos no ambiente?
Ao tratar do ambiente abrimos uma janela de inúmeras possibilidades e de baixo conhecimento agregado. Pouco se sabe sobre algumas espécies e as respostas dessas aos agrotóxicos, muito menos sobre os efeitos sinérgicos de vários agrotóxicos carreados pela chuva e os possíveis efeitos nos ecossistemas locais. Quando pensamos em organismos, os primeiros animais que vêm a cabeça são os mamíferos, os mais próximos aos humanos e que nos cativam. No entanto, os mais impactados são os da base da cadeia trófica, o plâncton e os crustáceos, por exemplo.
A agricultura no Brasil não apresenta padrões de controle ambiental bem estabelecidos como outros empreendimentos (indústrias, postos de gasolina, suinocultura e etc). O controle do efluente, no caso material lixiviado pelas lavouras, não é fiscalizado. Mas, acredito que lentamente os órgãos ambientais estão iniciando esse processo e já existem regras claras para a silvocultura e plantio de arroz irrigado.
A tendência é só melhorar. Há pouco mais de duzentos anos não existiam privadas e o efluente era jogado in natura em qualquer local, pensando bem, isso ainda acontece, mesmo com a existência de privadas.
Uma frase:
“O homem é mortal por seus temores e imortal por seus desejos”. Pitágoras.
Uma mensagem para nossa comunidade:
Caso, vocês se sintam em dúvida sobre qualquer tema e realmente tenham interesse em encontrar respostas, existem inúmeros estudos disponíveis na internet, bibliotecas, jornais e outros. A melhor forma de buscar solução é montar grupos de discussão para que possam argumentar por mudanças com os órgãos públicos e empreendedores.
Recomendo um livro da década de 60, que explica romanticamente o tema da entrada de substâncias novas e nocivas no meio ambiente: Primavera Silenciosa de Rachel Carson.